Mercado
Retalho reforça aposta em franquias
O boom das franquias no retalho ocorreu há cerca de 15 anos. As cadeias de retalho estão a abraçar este modelo de proximidade numa pe...
25 out, 2018

O boom das franquias no retalho ocorreu há cerca de 15 anos. As cadeias de retalho estão a abraçar este modelo de proximidade numa perspetiva de acompanhar as tendências do mercado e as preferências dos consumidores.

Maior proximidade com o consumidor e modernização do comércio tradicional. Estes dois vetores estão na base da estratégia de ampliação da rede de lojas franqueadas das cadeias de distribuição em Portugal. A existência de franquias nas cadeias de distribuição em Portugal tem quase quatro décadas. Mas o grande boom ocorreu há cerca de 15 anos. “Desde então, o crescimento tem sido constante e exponencial até levar os supermercados à liderança do franchising em Portugal, com o lançamento de novas marcas e de novas insígnias”, avança Cristina Maria Matos, secretária-geral da Associação Portuguesa de Franchising.

Em Portugal trata-se de várias centenas de lojas. “Estão neste momento muito perto do milhar de lojas de franchising no retalho alimentar na última década”, adianta a responsável. Cristina Maria Matos dá como exemplos os casos recentes do Auchan e do Meu Super, este último lançado, em 2011, pela Sonae. O Meu Super, por exemplo, já contava em 2016 com 260 unidades de franquias. O que leva as cadeias de retalho a adotar pelo modelo de franquia? “Podemos concluir que o foco tem sido a aproximação ao consumidor com a inauguração de novas lojas em áreas residenciais, com áreas de venda de cerca de 200 a 300 metros quadrados”, explica.

O Meu Super está presente em Portugal Continental, Madeira, Açores e Cabo Verde, com mais de 300 lojas. “O nosso objetivo é terminar o ano com 330 lojas abertas”, avança António Filipe, diretor-geral do Meu Super. A marca da Sonae abriu, em 2017, 60 lojas. António Filipe afirma que se trata de um modelo de negócio assente em franquias, mais vocacionado para a modernização do chamado comércio tradicional. E explica o porquê de o número de lojas estar a aumentar. “São espaços de conveniência, que privilegiam o atendimento personalizado e compras de menor dimensão, em que os empresários [parceiros da Sonae] beneficiam de todo o conhecimento e experiência da Sonae MC”.

O apoio dado pela Sonae MC aos seus parceiros consiste “na avaliação e definição do modelo de negócio, mas, também, na definição da oferta, constituída maioritariamente pelas marcas próprias e exclusivas do Continente, e até dos sistemas informáticos de apoio ao negócio”, explica António Filipe.

Modelo de proximidade através de parceiros
O grupo Os Mosqueteiros é proprietário em Portugal das insígnias Intermarché, Briomarché e Roady, contando com um parque de 319 lojas. O grupo abriu, em 2017, oito lojas. Este ano já contou com cinco aberturas e prevê abrir mais cinco até ao final do ano.

No caso do grupo Os Mosqueteiros, a proximidade ao cliente também é o elemento propulsor do negócio. “O grupo opera no mercado da distribuição com uma postura bastante diferente da que é usual neste setor. Trata-se do único grupo dirigido, diretamente, pelos próprios membros”, refere João Magalhães, administrador do grupo Os Mosqueteiros. E acrescenta: “os nossos casais aderentes vivem em localidades onde a sua loja está implantada, o que se reflete numa grande proximidade com as comunidades. Fazendo uma reflexão macro do setor da distribuição rapidamente nos apercebemos que a tendência de consumo passa por uma diminuição do valor médio do cesto de compras e o aumento da frequência à loja”.

O modelo de franquia do grupo assenta na interdependência. Ou seja, o grupo é composto por um conjunto de empresários autónomos. “São responsáveis na íntegra pela gestão de cada ponto de venda”, elucida João Magalhães. “Os diferentes aderentes beneficiam de um conjunto de estruturas comuns, logística, desenvolvimento, qualidade, comunicação”, acrescenta. O administrador do grupo que detém o Intermarché adianta ainda que as condições de adesão passam pela disponibilidade de capital, estar motivado a criar o próprio negócio e ser uma pessoa dinâmica, ter boa capacidade de gestão e de liderança, não exercer outra atividade profissional e ter disponibilidade para ter formação a tempo inteiro. “O capital necessário para integrar o grupo é de 200 mil euros para o Intermarché, 105 mil euros para o Briomarché e 75 mil euros para o Roady”, revela.

Também no grupo Dia a franquia é um dos pilares fundamentais do negócio. Neste momento, o grupo espanhol tem em território português mais de 300 lojas. “Os empreendedores nacionais que se juntam ao universo Minipreço acreditam nesta fórmula, que está na base do seu próprio sucesso enquanto empresários, o que tem contribuído para captarmos um número crescente de potenciais interessados na abertura de um supermercado”, afirma Marisa Garrido, diretora de recursos humanos, sistemas e franquia do grupo Dia Portugal.

Em termos estratégicos, a responsável acredita na viabilidade do modelo adotado na rede de franquia para que o grupo tenha um crescimento sustentável. “Os franqueados que assumem a gestão de um supermercado são os melhores embaixadores da marca onde implementam a sua atividade. São as pessoas que conhecem como ninguém a sua localidade e que permitem concretizar a nossa premissa de liderança no segmento de proximidade”, garante Marisa Garrido.

Fazendo uma análise da realidade do setor da distribuição alimentar, a responsável do grupo Dia Portugal acredita que o modelo de proximidade é o que mais se ajusta às expetativas dos clientes. “A distribuição moderna é, cada vez mais, um ponto de encontro entre uma oferta diversificada aos melhores preços do mercado com um conhecimento profundo das especificidades de cada localidade. É nesta simbiose que encontramos um modelo de sucesso que nos distingue e tem sido um fator decisivo na liderança que temos neste setor”, afirma.

Dois modelos de franquia
O grupo Dia tem dois modelos de franquia. Num deles, o franqueado suporta o investimento realizado e assume a propriedade do ponto de venda e a sua gestão. O segundo formato consiste em o grupo assumir e realizar o investimento, cabendo ao franqueado a gestão da loja. “O investimento mínimo é de 12.500 euros, sendo que, em função dos formatos disponíveis, o empate de capital é traduzido num conjunto de serviços de apoio à gestão e imobilizado, por forma a que o franqueado assuma a gestão do espaço e comece de imediato a explorar o ponto de venda”, explica Marisa Garrido. Acrescenta ainda que o grupo comparticipa parte do investimento não de forma imediata, mas através de um plano estabelecido. “Esta possibilidade é analisada caso a caso dependendo, claro, do modelo de franquia e das necessidades específicas de cada ponto de venda”.

No caso da Sonae MC, as vendas líquidas do Meu Super situaram-se nos 134 milhões de euros em 2017. O modelo da Sonae consiste num contrato semi-aberto. “É sustentado numa relação de parceria com todos os nossos franqueados, onde ajudamos em toda a fase de montagem do negócio e no pós-negócio, temos uma equipa que acompanha diariamente os parceiros”, esclarece António Filipe. O responsável conta ainda que as vantagens usufruídas pelo franqueado estão relacionadas com o abastecimento, um modelo logístico “eficiente” e sistemas e informação integrados com o das grandes superfícies da companhia. “A rede Meu Super oferece ainda outra vantagem aos seus franqueados, como a incorporação do cartão Continente nas lojas Meu Super e a disponibilização de produtos de marca própria Continente”. Além disso, os aderentes têm acesso a formação contínua. “Tem início antes da abertura da loja, com acompanhamento operacional através de uma equipa exclusivamente dedicada ao apoio às lojas, que oferece suporte em permanência”, diz António Filipe.

Resumindo, o retalho tem dois tipos de franchising. Há o modelo em que o franqueado assume o investimento. E há os casos em que o franqueado assume só a gestão da loja. “No primeiro caso, o proprietário da venda é o franqueado, que pode aproveitar e reconverter uma loja que já existia ou abrir uma nova loja, podendo também receber o apoio financeiro do franqueador. No segundo caso, é o franqueador quem detém a propriedade da loja, sendo ele o responsável pelo investimento. Já o franqueado paga o investimento inicial”, explica Cristina Maria Matos.

Vantagens usufruídas pelos franqueados
Em qualquer dos casos, adianta a secretária-geral da APF, o franqueado conta com o know-how de uma marca já reconhecida e com o seu apoio durante o tempo do contrato. “A diferença passa, sobretudo, pelo nível de investimento que o empreendedor tem possibilidade de fazer e que se reflete na distribuição da franquia entre si e o franqueador”, acrescenta Cristina Matos.

João Magalhães defende que uma das vantagens do modelo de franquia do grupo Os Mosqueteiros assenta na gestão feita pelo aderente. “Leva a um maior empenho na gestão da loja possibilitando a adoção de medidas que tenham em vista as necessidades específicas de cada localidade”, refere o responsável. “Este modelo de autonomia permite aos aderentes comprarem localmente produtos da região, aumentando a qualidade do portefólio e praticando preços mais competitivos. Além das vantagens que o nosso modelo representa para o cliente, do lado do aderente existe o compromisso de participar na gestão da insígnia, o que aumenta o grau de envolvimento do empresário com a marca”, subscreve.

Da parte da Sonae, a franquia é “um formato para empresários e para empreendedores”, sintetiza António Filipe. “Encontram no Meu Super uma forma de entrar no mercado de retalho alimentar ou de modernizar um modelo de negócio tradicional com a garantia e o suporte da Sonae MC”, refere. “Nas lojas para operar em modelo de franquia e, em qualquer negócio desenvolvido sob este formato, é fundamental que o franqueador e o franqueado estejam em sintonia e saibam qual o papel de cada uma das partes no negócio para se atingir o sucesso”, acrescenta.

O apoio aos parceiros na construção do negócio é também prioritário para o grupo Dia. E tudo começa na fase de implementação. “O grupo ajuda todos os empresários na construção do seu negócio, desde a escolha do local, passando pelo projeto, pelo acompanhamento da obra e da instalação dos diversos equipamentos, pelos aspetos legais, pela sua formação e dos seus colaboradores, até à montagem da imagem institucional e à respetiva promoção da unidade de negócio”, explica Marisa Garrido.

Todo o processo implica o acompanhamento de uma equipa especializada. O intuito é assessorar os parceiros que se juntam à rede de lojas do grupo Dia. “Após a abertura de loja, os empresários continuam a contar com acompanhamento personalizado. Focados na preservação da imagem Minipreço, o grupo Dia dedica particular atenção à otimização de custos. Para além disso, o grupo promove a rentabilidade do negócio para satisfação total de todas as partes envolvidas”, acrescenta a responsável do grupo de retalho espanhol.

O grupo Os Mosqueteiros abriu recentemente uma loja no centro da cidade de Lisboa, estando prevista, em breve, a abertura de uma loja no centro da cidade do Porto. Será o franchising uma oportunidade para expandir este formato? “Estamos permanentemente a analisar o mercado e oportunidades que possam surgir. Esta situação aliada ao sucesso do nosso grupo acaba por ser responsável pelo interesse e empenho que muitos casais têm demonstrado em fazer parte da nossa estrutura. Condições estas que facilitam a expansão do conceito”, considera João Magalhães.

Expetativa de crescimento
Quanto ao futuro, a tendência para o aumento de lojas franqueadas será para continuar. “Todas as insígnias têm um plano de crescimento ambicioso, que prevê a abertura de novas lojas e a remodelação das existentes. Este investimento vai permitir aumentar o nosso parque de lojas e consequente criação de postos de trabalho que, por sua vez, promovem o empreendedorismo, através do recrutamento de novos aderentes que poderão criar o seu próprio negócio”, adianta o administrador do grupo Os Mosqueteiros.

É também expetativa da Sonae continuar o crescimento da rede de lojas Meu Super. “Pretende continuar a crescer de forma sustentada, criando relações estreitas com parceiros de negócio e ajudando-os a potenciar a sua atividade”, adianta António Filipe. O Meu Super tem assim nos seus planos alargar a rede de lojas e aproximar-se das famílias portuguesas. “Estamos convencidos que há ainda muito espaço para estes formatos de proximidade crescerem, quer na criação de novas lojas, quer na modernização de lojas existentes, sobretudo porque os portugueses fazem cada vez mais compras de pequena dimensão e de forma mais frequente, o que favorece bastante as lojas Meu Super”, explica.

Na visão de António Filipe, a estratégia de proximidade vai marcar o futuro do retalho em Portugal. “Os consumidores atuais valorizam a proximidade e o sentido de vizinhança, que lhes permite beneficiar de um atendimento personalizado. Percebemos também que os clientes apreciam o conforto e, por isso, temos procurado tornar os nossos espaços mais cómodos, por exemplo, através da utilização de materiais naturais, do cuidado com a iluminação e até do investimento em parques de estacionamento”, complementa.

Já o grupo Dia pretende utilizar a confiança que os seus consumidores depositam na marca para ir adaptando o seu negócio às tendências do mercado. “Este capital de reconhecimento, sendo um dos nossos principais ativos é, ao mesmo tempo, uma das razões do nosso compromisso diário em desenvolver conceitos de distribuição que sejam dinâmicos e que consigam acompanhar, em todos os momentos, a evolução das tendências de consumo”, refere Marisa Garrido. “A nossa rede de franquias é parte fundamental deste processo e uma das razões pelas quais nos iremos continuar a assumir como a principal empresa franqueadora no ramo da distribuição alimentar em Portugal”, termina.

FONTE: Revista Hipersuper