Os consumidores mais velhos querem sentir-se mais novos. A procura pela autenticidade está a crescer. A consciência dos consumidores aumenta. Querem produtos com mais conveniência e a bom preço. A redução do plástico é uma tendência que se intensificará em 2019. Estas são algumas das conclusões do estudo da Euromonitor International sobre as tendências de consumo
As marcas são forçadas a inovar constantemente e a reduzir preços. Os seus produtos têm de ser mais atrativos. Na era do comércio digital, os consumidores são mais conhecedores dos produtos. Logo, mais exigentes. Os ‘novos’ consumidores, com o quotidiano mais acelerado em termos de tempo, precisam de produtos e de experiências para terem oportunidade de dedicarem mais tempo à vida pessoal e profissional. Daí que as empresas necessitem de uma melhor gestão de dados para dar resposta às exigências dos seus clientes. Este é o panorama traçado pelo Euromonitor International no documento “As 10 tendências globais de consumo 2019”, o qual foca os desejos dos consumidores para este ano.
Mas há mais. Em linhas gerais, a expressão da individualidade é uma tendência à qual não se pode contornar. E em matéria de consumo, esta caraterística é incarnada no desejo por experiências autênticas e simples. O materialismo excessivo, portanto, já está longe de ser uma tendência. A pressão para o abandono do plástico, bem presente no último ano, é para intensificar. E a consciência ética do consumidor tende também a aumentar, estando entre as suas preocupações o bem-estar alimentar animal nas áreas da alimentação, beleza e moda.
Mais velhos querem o mesmo que os mais novos
Em termos de tendências globais para 2019, o documento destaca, em primeiro lugar, o comportamento dos mais velhos e como estes desejam que as marcas se relacionam com eles. Estamos a falar da geração de baby boomers, nascidos entre 1946 e 1964, que é a que mais ignora a idade, pretendendo as pessoas desta geração ser tratadas como sendo mais jovens. As pessoas desta geração com rendimentos mais elevados são tão obcecadas com a tecnologia quanto a geração dos millennials. Desejam conhecer os últimos modelos de telemóveis e as aplicações da moda. “Estamos a avançar para uma era agnóstica quanto à idade. Fabricantes de produtos e fornecedores de serviços devem reconhecer isso e tornar seus produtos mais universais e recetivos. As pessoas não querem sentir-se velhas. O importante é o tratamento emocional e a gestão do envelhecimento”, refere Zandi Bremner, líder de inovação e consultoria do Euromonitor International.
Querendo manter-se jovens, os baby boomers procuram produtos e serviços que permitam que a mente e o corpo sejam mais joviais. Sendo neste momento pessoas com um nível de rendimento superior, estas tornam-se um público-alvo apetecível para certos serviços e artigos. Casas de férias, relógios de luxo, suplementos nutritivos, tratamentos de beleza e uma extensa gama de produtos premium poderão fazer parte do leque de escolhas das pessoas pertencentes a esta geração, refere o documento. Ainda para mais, como avança o estudo, as pessoas entre os 50 e os 59 anos tenderão a ver o rendimento a crescer entre 22% e 26%. “Agora, para ter sucesso, o essencial não é conceptualizar os consumidores de maneira óbvia, mas sim mostrar abertura para aceitar todos e criar um design universal para todas as gerações. Os negócios devem lidar com o grupo demográfico mais velho com abordagens subtis, afastando-se da subsegmentação de consumidores, sem tratá-los como consumidores velhos”, acrescenta Zandi Bremner.
Consumidores querem mais autenticidade
A crise de 2008 serviu de lição para o excesso de materialismo das sociedades contemporâneas. Hoje, mais conscientes, os consumidores reformulam os hábitos de consumo. O que desejam, segundo o Euromonitor International, é uma aproximação à simplicidade, à autenticidade e à individualidade.
Como é que estes três vetores têm tradução no consumo? Através da rejeição do consumo de produtos massificados. A preferência, realça o documento, vai para produtos produzidos localmente, cervejas e bebidas artesanais, comida para bebé feita em casa. Ainda há um crescimento da popularidade dos alimentos locais, porque os consumidores pretendem produtos mais frescos e saborosos. A ideia, refere o documento, é também estimular negócios locais e reduzir os impactos ambientais através da eliminação das distâncias percorridas pelos produtos. E a procura pelo melhor custo-benefício no consumo de frutas e vegetais da época é uma regra atual entre os consumidores.
Na área da estética, menciona o documento, a tendência é para a procura de produtos personalizados. “À medida que a vida quotidiana se torna mais agitada é esperado que o desejo pela simplicidade se torne mais relevante no setor de beleza. Vimos o aumento do interesse dos consumidores por produtos naturais, remédios de ervas tradicionais e alternativas com ingredientes naturalmente saudáveis”, realça Kseniia Galenytska, analista senior do Euromonitor International. E acrescenta: “a procura por produtos que usam ingredientes naturais também está a aumentar. 29% dos consumidores buscam por produtos para pele com ingredientes totalmente naturais, enquanto a transparência nos ingredientes é desejada por 19% dos consumidores (…). As marcas estão a responder à procura dos consumidores, reduzindo o número de ingredientes nas formulações dos produtos”.
Consciência dos consumidores aumenta
As pessoas já não consomem só por consumir. Compram um produto e querem saber o impacto que o consumismo tem no mundo. Estão preocupados com o meio-ambiente, com os animais e com outros seres humanos. Adianta o documento do Euromonitor que ser vegan deixou de ser uma prática extremista. Há mais pessoas a adotarem este estilo de vida nas sociedades ocidentais. Trata-se de pessoas preocupadas com a saúde, com o bem-estar animal e com o impacto sobre o meio ambiente da produção industrial de carnes.
Esta tendência é mais notada nas sociedades mais desenvolvidas, onde uma dieta baseada em vegetais constitui uma tendência em busca de uma vida mais saudável e baseada em valores éticos. Não substituem apenas a carne e lacticínios. Na moda preferem produtos sem couro de pele e procuram produtos de beleza que não tenham componentes de origem animal. “A procura por mais transparência está a obrigar as empresas de beleza a agradar consumidores que conhecem os ingredientes e que se querem destacar através de suas escolhas e causas”, refere Irina Barbalova, líder global de saúde e beleza do Euromonitor Internacional.
Estas pessoas, com a denominação de consumidores conscientes, procuram ingredientes vegetais em produtos de beleza, como extratos de plantas e óleos essenciais, adianta o estudo. Procuram ainda alimentos e bebidas que tenham rótulos como “não testado em animais”, “criação livre” ou “alimentação natural/criado no pasto”. Uma tendência que está a ganhar ainda maior peso é as vendas de bebidas vegetais e de produtos que substituem a carne animal estar a crescer.
Digital revoluciona modo de relacionamento em todo o mundo
O contato digital entre as pessoas não para de evoluir. A nível profissional, a comunicação evolui para a inclusão de mensagens de texto, vídeos, a partilha de documentos em tempo real e reuniões virtuais com várias pessoas espalhadas pelo mundo. Esta evolução dá possibilidade de colaborar em termos digitais nas áreas da medicina, na edução e na produção multimédia, refere o documento. “A realidade aumentada já é popular através de jogos para dispositivos móveis, como o Pokémon. Quando estiver totalmente desenvolvida, a tecnologia que manipula o espaço à frente em uma tela poderá ser de imenso valor nos treinos, compras e reuniões. A tecnologia de realidade virtual precisará de avanços significativos em tamanho e preço antes de serem produzidas em massa”, analisa Matt Hudak consultor de jogos do Euromonitor Internacional.
A nível pessoal, as plataformas digitais servem para partilhar experiências e participar em atividades em conjunto. Um exemplo dado pelo documento do Euromonitor International é o dos amantes de videojogos. Estes encaram os videojogos como um ponto de encontro tão importante como a vida real. “A realidade virtual aumentada já está a ser usada em comunidades digitais na Ásia, onde os participantes podem jogar e assistir aos jogos eletrónicos online. Por exemplo, o Twitch chamou a atenção dos fãs de videogames por ter uma média de um milhão de participantes ao vivo ao longo de 2018, um aumento de 42% em relação a 2017”, refere Matt Hudak.
Com o aumento da velocidade da Internet em algumas zonas do mundo, como África, Médio Oriente e Ásia Pacífico, a tendência para a ligação digital entre as pessoas em todo um mundo cresce a nível acelerado. As conversações por vídeo não pararão de aumentar, até porque plataformas como o Facebook Portal estão a melhorar as experiências dos utilizadores e a possibilitar conversas mais interativas. Ainda há uma tendência para a criação de relações online, com mais de 200 milhões de pessoas a usarem, neste momento, aplicações de relacionamentos online, refere o documento.
Os consumidores estão mais informados
Que o comércio eletrónico está a aumentar não é segredo. Estima-se que, em 2022, China, Japão, EUA, Reino Unido e Índia serão os mercados com mais peso nas compras online. Que os consumidores estão mais informados sobre as caraterísticas e preços dos produtos também não.
Sites como a Amazon produziram uma cultura em que os utilizadores classificam a qualidade dos produtos. Hoje, portanto, com a proliferação do comércio online e das redes sociais, é mais difícil para as lojas manterem preços elevados de forma arbitrária e que não sejam transparentes.
Além disso, o “boca a boca” é cada vez mais uma tendência, com os consumidores a utilizarem o Twitter, o Whatsapp e o Instagram para partilharem as suas pesquisas e darem dicas aos amigos onde podem encontrar novos produtos a um bom preço.
Esta cultura de partilha, em que os consumidores difundem informações sobre lojas e produtos online e são influenciados pelos seus amigos, fará o comércio online aumentar. São tendências de consumo que predominam entre pessoas com rendimentos médios e elevados, pois até os mais ricos exigem que haja uma boa relação custo-benefício. E reclamam vigorosamente quando a experiência de compra não é satisfatória. “A mudança rumo a um padrão maior de experiência, escolha e conhecimento é algo permanente gerado pelos millennials e a geração Z. Hoje em dia, os consumidores contam com a experiência dos seus conhecidos para garantir que consigam o melhor numa grande quantidade de opções semelhantes”, analisa Michelle Grant, diretora de pesquisa de retalho do Euromonitor International.
Consumidores retornam ao mundo real
Proteção do bem-estar mental, melhor escolha do tempo e maior seletividade nas atividades são algumas prioridades dos consumidores. Esses consumidores reduzem o seu tempo online e aumentam a suas experiências na vida real. Essas pessoas, segundo o documento do Euromonitor International, querem fugir do stress digital, provocado pela sensação de estarem obrigados a estarem sempre disponíveis online. Estão, por isso, a virar-se para outras atividades.
No caso dos millennials, há um retorno a objetos que se julgavam obsoletos na era digital. Os discos de vinil e a venda de livros estão a fazer fomentar negócios que estão a aproveitar esta tendência. O uso áudio livros está a crescer durante exercícios físicos, corridas ou em trajetos para o trabalho. Os cursos offline, que possibilitam o contacto com mais pessoas, também estão a crescer. E o mesmo sucede com café sem wi-fi, onde os consumidores usufruem o espaço, segundo o estudo-
Há consumidores que, devido ao stress provocado pelas experiências online, procuram valorizar atividades offline dentro e fora de casa. Reduzir o uso das redes media sociais, notificações de aplicações e e-mail não significa desconectar-se completamente. Os consumidores querem definir os limites e ter tempo um para as atividades de que gostam. “Cada vez mais, os millennials procuram soluções de viagem que permitam definir o próprio ritmo. Embora não procurem se isolar completamente, eles querem limitar as interações forçadas”, sustenta Wouter Geerts, consultor de turismo do Euromonitor International.
Consumidores procuram personalização
Com tantas opções de produtos e tanto ruído em torno das marcas, refere o documento do Euromonitor International que há cada vez mais consumidores que assumem o controlo do seu bem-estar. E assim querem depender menos das marcas. O bem-estar é uma máxima. Logo, os consumidores procuram produtos que ajudem a facilitar o seu bem-estar. A aplicação Spoon Guru, no Reino Unido, permite criar um perfil personalizado no que diz respeito às preferências alimentares. A aplicação, com base no perfil do utilizador, recomenda restaurantes e receitas que vão ao encontro das preferências do utilizador. “A ideia de ser autossuficiente atrai os consumidores. Apesar de muitos consumidores se divertirem fazendo compras, experimentando produtos novos e provando os alimentos, a noção de depender de algo passa a sensação de não ter controle. Poder “cuidar de si mesmo” é visto como um luxo que permite que as pessoas sejam mais versáteis e expandam suas possibilidades. Essa tendência aparece na maneira que as pessoas comem, bebem e lidam com sua saúde alimentar. Hoje em dia, tornou-se menos aceitável estar desinformado sobre alimentação”, refere Sara Petersson, analista senior do Euromonitor. E acrescenta: “os consumidores estão a “acordar” para a retórica das redes sociais e certas técnicas de marketing do setor de alimentos e bebidas. A enorme quantidade de informações disponíveis gera instruções conflitantes e alarmismo. Soluções como nutrição personalizada, terapias saudáveis e soluções preventivas oferecem ao consumidor a clareza que ele tanto precisa em um espaço saturado e incontrolável”.
Combate ao plástico intensifica-se
A tendência para a existência de um mundo sem plástico foi notória em 2019. Mas tende a aumentar. Trata-se do desejo de reduzir plásticos como embalagens de uso único para alimentos e bebidas, micro plásticos encontrados em produtos de beleza e plásticos produzidos pela indústria de fast fashion.
Quanto à reciclagem, nem todos os países têm as mesmas condições para fazê-la com o mesmo nível de eficácia. Enquanto a Alemanha tem elevados índices de reciclagem, com sistemas de retorno das garrafas plásticas e programas eficientes de reciclagem que favorece a redução dos resíduos plásticos, há muitos países sem infra-estruturas e vontade política para fazer o mesmo.
Os consumidores, no entanto, estão cada vez mais preocupados com os problemas ambientais produzidos pelo plástico. Há assim mais pessoas disponíveis a pagar mais por alimentos frescos e industrializados sustentáveis ecologicamente. “O plástico nunca antes foi um assunto tão importante entre consumidores e deverá ser ainda mais relevante em 2019. A durabilidade das embalagens plásticas está a ser investigada devido à sua presença poluente. Importantes ONGs e iniciativas legislativas que lidam com plástico colocaram o material no topo das preocupações públicas. Alguns retalhistas estão a comprometer-se a não usar o plástico e as marcas estão a prometer ir ainda mais longe com embalagens reutilizáveis, recicláveis e recicladas”, refere Rosemarie Downey, diretora de pesquisa de embalagens do Euromonitor International.
Consumidores querem poupar tempo
Com cada vez menos tempo, os consumidores pretendem que os produtos e serviços seja entregues célere. O propósito é terem mais tempo para as suas vidas pessoais e profissionais. As gerações mais jovens são as mais propensas a usarem aplicações de serviços que lhes permitam poupar tempo. O leste asiático desenvolveu-se recentemente como o centro da Internet móvel do mundo, com mais de 1,1 mil milhão de assinaturas de Internet móvel registadas somente na China. E as superapps estão a desenvolver-se a partir da ampla adoção da tecnologia móvel nos mercados orientais. Eles popularizaram-se no leste asiático porque as plataformas trabalharam com as empresas para levar as marcas aos aplicativos, criando uma convergência entre apps de redes sociais e e-commerce num momento crítico no qual os consumidores estavam adotando smartphones rapidamente”, analisa Michelle Evans, diretora de pesquisa de consumidor digital do Euromonitor.
Segundo o documento, grande parte das pessoas entre os 33 e 44 anos de idade está disposta a gastar mais dinheiro por serviços e produtos que sejam eficientes e os ajudem a poupar tempo. Essa propensão é mais elevada em sociedades com elevados níveis de urbanização. O lançamento de lojas como a AmazonGO serve de exemplo a um serviço que pretende que os consumidores não percam tempo em filas.
Valorização da conveniência e preço
Há uma geração mais velha de consumidores, com maior poder de compra, que está a viver sozinha. Há solteiros, divorciados com filhos ou até viúvos. Nas gerações mais novas, algumas pessoas rejeitam o casamento e até mesmo a coabitação.
O índice de divórcios com pessoas com mais de 50 anos duplicou entre 1990 e 2005, indica o documento do Euromonitor, citando dados do Pew Research Center. Por outro lado, há cada vez mais pessoas a decidir não se casar, sendo que até 2030, a estimativa é existir um aumento de 120 milhões de residências de uma única pessoa.
Os consumidores que vivem sozinhos valorizam a conveniência e o preço, pois pelos custos que têm estão preocupados com a segurança financeira. Estão assim mais disponíveis a gastar dinheiro em produtos simples, simples funcionais e descartáveis. Compram produtos em embalagens menores e são menos fiéis a certas marcas.
E no caso dos baby boomers que vivem sozinhos, a tendência é para gastaram os seus rendimentos em animais de estimação, procurando assim serviços, cuidados e produtos de qualidade para os seus animais de estimação, conclui o documento.
FONTE: Revista Hipersuper