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O "gamer" que se tornou queijeiro

19 julho 2021

Rodolfo de Carvalho mudou-se para o Alentejo por amor e para continuar a trabalhar na sua área de formação ligada ao design gráfico. Mas uma proposta inesperada fê-lo virar "roupeiro".

Na estrada que liga Serpa a Pias a paisagem está diferente. No nosso imaginário, o baixo Alentejo ainda é desenhado com chaparros e searas, mas a cultura intensiva de oliveira está a mudar a paisagem. O amarelo torrado das searas passou ao verde cinza dos olivais. Numa quinta junto à estrada fica a queijaria de Rodolfo Sater de Carvalho. Fomos ao seu encontro num domingo à tarde porque este é o dia de fazer requeijão de ovelha e queremos conversar com este recém-queijeiro que veio de longe.

Natural de Vila Franca de Xira, estudou design gráfico nas Caldas da Rainha, onde ainda ponderou ficar: "Nunca pensei muito para a frente, mas também nunca pensei sair de Vila Franca, nem das Caldas da Rainha" diz a sorrir. O amor, descobriu-o ali, numa colega do curso. E foi essa paixão por Amélia que o trouxe há oito anos até ao Alentejo, para trabalhar como designer na empresa que a companheira fundou.

Tudo girava em torno dos computadores. Quando não era no trabalho, a desenhar peças de comunicação para as marcas da região - que iam desde o desenho de sítios na internet até rótulos e campanhas - tinha o hábito de jogar videojogos online - o gaming. Era um gamer que "sofria muito com a velocidade da internet", mas apaixonado por essa forma de passar o tempo e até do convívio quando compartilhava um jogo com outros. Sempre foi muito ligado às tecnologias e, talvez por isso, Rodolfo ainda hoje não consegue perceber como é que a "coisa se deu". Sabe que, no meio de tanto contacto com computadores, começou a ficar saturado e sentia "um crescente desapego pela arte do design gráfico". Cada pequena tarefa transformava-se numa coisa "muito pesada" e a desmotivação foi-se instalando. "Por sorte ou talvez não, fui um dia abordado na rua por um senhor que queria saber se eu gostava de alugar uma queijaria", recorda a rir-se com o inusitado da proposta. Conhecia bem as histórias do queijo da região, graças ao sogro que era um apaixonado pelo tema. Este culto ao queijo de Serpa está ligado à qualidade do leite de ovelha, mas não só.

O queijo de Serpa está intimamente ligado ao convívio e ao sentimento de comunidade em algumas partes do Alentejo. Frequentemente, enquanto se partilha uma canção de cante alentejano, alguém saca de um queijo da região para compartilhar. Faz parte do sentir alentejano, em torno de uma mesa, repartir o cante, o copo de vinho, o pão e o queijo para unir a comunidade. Sobre a proposta: "Ri-me muito daquilo e achava uma parvoíce, mas depois a ideia foi ficando criando raízes e cá estou eu", explica. No processo, que considera muito normal, foi saber junto dos outros produtores como se faz.

Nesta região estes produtores são apelidados de roupeiros, graças à tradição de estender à porta de cada queijaria as mantas tradicionais e panos utilizados no processo de filtragem do leite e fabrico do queijo. Aprendeu com estes roupeiros mais antigos, a quem pediu ajuda com a humildade de quem vem da cidade e pouco percebe do ofício. Em alguns casos, eram clientes do estúdio de design e foram ajudando o jovem.

No final de 2019, deu início a esta nova etapa na sua vida. Auxiliado pela preciosa transmissão de conhecimento dos outros roupeiros, aliou à tradição alguma modernidade tecnológica. Em instalações modernas e bem equipadas, processa leite de ovelha 100% alentejano, filtrado em mantas tradicionais, a que juntou flor de cardo de apanha manual e sal marinho do Algarve.

Após seis meses de produção, a Curadoria 100 Histórias recebeu quatro medalhas no Concurso Nacional de Queijos Tradicionais Portugueses. O queijo fresco de cabra recebeu medalha de ouro e a distinção "Melhor dos Melhores", enquanto o requeijão de ovelha foi distinguido com medalha de ouro e o queijo de ovelha curado com medalha de prata. Um registo impressionante para "um gajo vindo de fora, que veio abrir uma rouparia". Na sua essência Rodolfo sente-se muito bem nesta comunidade onde se valorizam as pessoas. Vê em Serpa um lugar seguro, saudável para si, para a mulher Amélia, e para criarem a filha de dois anos. Sentem-se mais que acarinhados nesta comunidade: "As pessoas aqui vivem muito as tradições e gostam de acarear, que é uma palavra que usam muito por aqui, quer dizer trazer para si - acolher".

FONTE: Diário de Noticias