Monte do Ganhão: As voltas que o queijo dá

31 maio 2021

Em Sousel no Monte do Ganhão o queijo, numa das etapas de produção, é virado todos os dias. Dá voltas e voltas, tal como a vida. A pandemia travou alguns projetos da empresa que ainda quer retomá-los. “Já passámos por outras crises. É um ciclo”.

Dulce chegava da escola e preferia ir ter com o pai António que andava à volta dos borregos. Célia gostava mais de ir para a queijaria. Desde pequenas habituaram-se a ajudar os pais nestas tarefas e tomaram-lhe o conhecimento e o gosto. Hoje são as irmãs que estão à frente da queijaria Monte do Ganhão, na zona industrial de Sousel. O pai continua a cuidar dos hectares de pastagem e dos animais. Mas, “não fazemos nada sem lhe perguntar”, confidencia-nos Dulce Ganhão.

Pai e avô já faziam queijos, mas de vaca. Em 1975, acabado de casar, o pai comprou um pequeno rebanho de ovídeos e atirou-se à experiência de fazer queijo de ovelha. “E foi aí que começou a história do Monte do Ganhão”, relata a filha Dulce, contando que a partir de então o queijo de ovelha se tornou a especialidade da casa, tendo já amealhado vários prémios. “O melhor do melhores” foi a distinção, em 2020, do queijo curado envelhecido no X Concurso Nacional de Queijos de Cura, organizado pela Feira Nacional de Agricultura, em Santarém. Um produto saído da queijaria na zona industrial de Sousel, inaugurada em junho de 2018, após um investimento de 1 milhão de euros. Até essa data, os queijos do Monte do Ganhão eram produzidos na “velha” queijaria, no centro da vila alentejana do concelho de Portalegre. Uma queijaria nascida em 1985 semi-industrializada, que acabou desativada em 2018 quando a família a transportou para a zona industrial da terra.

E de uma capacidade de produção de 120 mil queijos por mês passou para os 300 mil, uma quantidade ainda não alcançada. A pandemia apanhou o Monte do Ganhão em aceleração, e quase com essa meta a ser atingida. Mas 2020 trouxe travão na produção, que ainda não foi retomada na plenitude. Dulce Ganhão garante que até fevereiro de 2020 o negócio foi “sempre a crescer”, tendo 2019 sido, mesmo, o melhor ano de sempre em termos de vendas, cujo montante, no entanto, não é revelado.

Os queijos são vendidos no retalho e no canal horeca (restaurantes, cafés) e o Monte do Ganhão tem uma pequena loja própria. Nos primeiros meses da pandemia, o negócio foi cortado de forma significativa. As lojas alimentares continuaram a trabalhar, mas mesmo essas, inicialmente, travaram as compras. “Ninguém sabia o que ia acontecer”, lembra Dulce Ganhão, acrescentando que, depois, “veio um crescimento maior do que aquele que estávamos habituados antes da covid-19 por parte dos hipermercados e supermercados”. Os portugueses “começam a consumir mais produtos portugueses e a comprar mais para casa. Foi uma grande ajuda. Os hipermercados também se aliaram a nós, com campanhas de promoção dos pequenos produtores para que conseguíssemos escoar o produto”, recorda a gestora. Com o desconfinamento, e abertura dos restaurantes, cafés e tascas – uma fatia importante dos seus clientes –, já se retomou, mas “está a ir muito lentamente”.

Com o país confinado, a partir de março de 2020, a produção na queijaria diminuiu. A equipa, de 20 pessoas, foi dividida em dois, para haver metade a trabalhar e a outra metade em casa. O Monte do Ganhão não queria arriscar infeções, sob pena de parar a produção e estragar o leite. “Houve uma grande compreensão da parte dos funcionários que tiveram todos os cuidados e conseguimos nunca deixar de produzir.” O leite tem de ser recolhido do rebanho – que hoje tem cerca de 2.000 cabeças – e utilizado de imediato na produção do queijo. E os meses de fevereiro, março e abril são os de maior produção na queijaria, já que é nessa altura que o leite é em maior abundância.

E é aqui que está um dos segredos dos queijos Monte do Ganhão. Tudo começa nos pastos onde as ovelhas se alimentam. “Se o leite for bom, é meio caminho andado.” Mas também na fábrica há segredos. Aqui os queijos são virados todos os dias e ainda se coalha o leite “à moda antiga”. “Nem tudo pode ser modernizado”, atira Dulce.

Mais projetos para vir
Março de 2020, quando Portugal começou a confinar devido à pandemia, apanhou o Monte de Ganhão com projetos que tiveram de ficar em “stand by”, mas que, a seu tempo, serão retomados. Em 2019, as instalações tinham sido aumentadas em 200 metros quadrados para a instalação do Museu do Queijo. Não há nenhum no Alentejo e as agências de viagens tinham começado a incluir o Monte do Ganhão nos roteiros de visitas. Os grupos de turistas – holandeses, brasileiros, chineses – chegavam às 60 pessoas. Ter um espaço dedicado foi, para a empresa, a opção que fazia sentido, com área de degustação. Estava tudo pronto. Agora há que esperar que os turistas voltem. “É um projeto para retomar”, assegura Dulce Ganhão. Outro dos projetos que estava planeado era a construção de um armazém para os fornecedores. O terreno está comprado. E a ampliação irá acontecer.

A pandemia “apanhou-nos com vários projetos em mãos”. E Dulce lamenta que as empresas não tivessem tido as ajudas necessárias – nomeadamente no pagamento suficiente para o pessoal que teve de ficar em casa, ou no alívio fiscal – para estarem, agora, numa melhor situação.

Fechou o país, mas a internet abriu
Com a pandemia, Dulce assume que acabou por ter mais tempo para se dedicar a um projeto que estava adormecido. As vendas online através do site que ativou e que, hoje, continua a receber encomendas, até do estrangeiro. Um site que é uma montra da região. Além dos seus próprios queijos e compotas, o site vende bolachas, enchidos, azeite, tudo da terra. O que permitiu à empresa lançar cabazes temáticos – o primeiro foi o do Dia da Mãe –, mas depois replicou no Natal, Dia dos Namorados, Dia do Pai, Páscoa, entre outros. E garante portes gratuitos para quem fizer compras de dois quilos ou mais. Dulce admite que ter outros produtos, além dos queijos, é uma ajuda para que não haja custos nos portes, sendo esse um dos entraves nas compras online. “Correu muito bem”, assume. E é para continuar.

“Continuamos sempre com ânimo”, diz, com alegria, Dulce Ganhão. Afinal, “já passámos por várias crises. Esta poderá, agora, ser pior, mas é um ciclo”. A fábrica não pára. Os queijos continuam a sair. E há algum segredo na produção? “A paixão”.

PERFIL
A Família Ganhão produz queijos de ovelha desde 1975. Em 2018 mudou-se para a zona industrial de Sousel, onde tem a queijaria com capacidade para uma média de produção de 300 mil queijos por mês. Dulce (na foto) e Célia são as irmãs que tratam da gestão da queijaria, enquanto o pai António trata das pastagens e da recolha do leite do rebanho que tem cerca de duas mil cabeças.

FONTE: Jornal de Negócios

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