Covid-19 afeta severamente fileira de laticínios

07 maio 2020

Com o canal Horeca encerrado e o turismo afetado, muitos produtos não estão a ser consumidos, como leite, manteiga ou iogurtes. O próprio leite UHT sofreu, antes da Páscoa, uma diminuição nas vendas no retalho alimentar.

A fileira de lacticínios está a viver um período particularmente delicado. Restauração e cafés estão encerrados, sucedendo o mesmo na área de hotelaria. O que significa uma quebra de vendas nas empresas que fornecem leite, pacotes de manteiga, iogurtes e queijos nestes canais de vendas. A pandemia da Covid-19 está a ter efeitos desastrosos em muitas áreas da economia. Os pequenos produtores sentem particularmente essas dificuldades. “Para algumas empresas podemos referir que a perda de vendas é total, para outras empresas representará 20 ou 30 % de perda, pois o seu negócio não está tão centrado nesta área”, adiantou Maria Cândida Marramaque, diretora-geral da Associação Nacional dos Industriais de de Lacticínios (ANIL), em declarações ao Hipersuper.

Esta perda é, aliás, transversal às empresas da fileira por não estarem a conseguir vender parte dos bens que produzem e comercializam. “Dependendo da natureza da empresa, todas as que tinham de alguma forma direcionado o seu produto para o canal Horeca e Foodservice, veem-se impossibilitadas de colocar o produto. Do leite destinado aos ‘pingos’ e ‘galões’ por todos os cafés, passando pela manteiga para a torrada, à unidose que está presente na mesa do restaurante, ao queijo que cobre a francesinha, ou ao queijo tradicional que nos faz companhia durante a refeição, todos perderam presença à mesa fora de casa”, acrescenta a responsável.

A situação é ainda mais delicada em queijarias com unidades de produção de menor dimensão. “Muitas das queijarias, cujo escoamento de produto se fazia através da restauração, das feiras e mercados locais, ou lojas de especialidade, viram os seus canais preferenciais de venda fechados. São muitas as unidades a sentir o mesmo impacto. São muitas toneladas de queijo armazenadas”, salienta a diretora-geral da ANIL.

A responsável acrescenta que as empresas que não estão a escoar produto na grande distribuição podem vender algum no canal online. “Ainda assim, é muito pouco”, diz “Quem está no online pode ter vendas, mas depois ainda há as questões relacionadas com os custos de transportes”, explica. “Há empresas reconhecidamente mais tradicionais, que nem são nossas associadas, que muitas delas estão a sofrer quebras de vendas de 80% a 90%”, acrescenta.

Maria Cândida Marramaque apela assim à transferência do consumo dos queijos mais tradicionais para dentro dos lares. “É necessário que o consumidor se disponibilize a ir ao encontro destes produtos na Internet e nos espaços de comercialização que, de momento, estão abertos”, diz. “Que compre!”, apela. “Não se pode pedir às produtoras para perderem capacidade de produção, porque depois é muito difícil recuperar essa mesma capacidade”, acrescenta.

A diretora-geral da ANIL considera que, da parte do Governo, foram tomadas iniciativas para aproximar os consumidores dos produtos, dando como exemplos o pedido de abertura dos mercados locais e a campanha “Alimente quem o Alimenta”. Esta última iniciativa, levada a cabo pelo Ministério da Agricultura, pretende incentivar o consumo de produtos locais, quer através de mercados de proximidade, quer através da plataforma da campanha, na qual os produtores podem anunciar os seus produtos e fazer a entrega dos mesmos.

O próprio executivo apelou, no início de abril, às cadeias da grande distribuição ligadas à Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), para que seja encontrada uma solução para escoar queijos de ovelha e queijos de cabra. O Governo, através do Ministério da Agricultura, lançou um“apelo e um alerta” para a realidade preocupante de setores como o dos queijos de ovelha e cabra, cuja falta de escoamento está a levar a dificuldades de conservação e armazenagem do leite, levando mesmo a situações de desperdício, que serão de evitar sob pena de uma perda de rendimento”.

Falamos particularmente de pequenas indústrias assentes em pequenos produtores de matériasprimas, cujo mercado primordial de escoamento é muitas vezes a restauração e a hotelaria locais, e que se viramprivados desses circuitos, sem conhecimentos para poderem no imediato orientar a sua comercialização para os canais de retalho de maior escala”, referiu o executivo. “Se bem que estes produtos não sejam essenciais para manter o abastecimento alimentar, são fundamentais para o rendimento dos produtores e famílias envolvidos na sua produção e das respetivas matérias-primas”, acrescentou.

A APED, por sua vez, assumiu uma posição de abertura. “Não podemos salvar todos, mas estamos a fazer todos os esforços. Estamos a tentar acomodar dentro do sortido este tipo de produtos, dentro das contingências e da razoabilidade do negócio e das necessidades dos consumidores”, referiu, na altura, Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da associação. “São produtos que exige promoção em loja, são muito de consumo de impulso – e o consumo caiu a pique. As pessoas vão ao supermercado para comprar produtos de primeira necessidade”, acrescentou.

A diretora-geral da ANIL salienta precisamente que a grande distribuição está sensibilizada e a ser cooperante nesta área. “O Pingo Doce está a promover os queijos tradicionais. O Intermarché está a reservar um canto onde os produtores podem colocar os seus produtos”, exemplifica.

A ANIL defende, neste contexto, medidas de “convite aos consumidores para que consumam leite e produtos lácteos portugueses”. “É necessário também que as cadeias de distribuição e todas as lojas de proximidade favoreçama disponibilidadede produtos lácteos nacionais”, defende Maria Cândida Marramaque. “Junto das autoridades nacionais é necessário trabalhar para que sejam encontrados mecanismos que permitam a manutenção económico-financeira das empresas de lacticínios, quer nacionais, quer comunitárias”, acrescenta.

LEITE UHT E QUEIJO FATIADO DESCEM AS VENDAS
Após a confirmação, no início de março, dos primeiros casos da Covid-19 em Portugal, muitos portugueses lançaram-se numa corrida desenfreada aos supermercados. Mas, tal como têm vindo a mencionar a Kantar e a Nielsen, o comportamento dos consumidores mudou aos estarem obrigados, neste momento, a permanecer em confinamento. As próprias cadeias dedistribuição tiveram de reduzir o número de clientes por loja. As consequências são óbvias: uma menor afluência aos hiper e supermercados, mas com mais produtos adquiridos por acto de compra. “O ritmo de compra por parte do consumidor não é o mesmo, e assim também não é o das encomendas”, salienta Maria Cândida Marramaque. “Nas primeiras semanas houve um aumento significativo de algumas referências, com especial destaque para a compra de leite UHT e de queijo, regra geral, fatiado”, ilustra. Mas não deixa de destacar a recente quebra de vendas. “Este aumento de compra surge pela necessidade de preencher as despensas com produtos de maior longevidade, como o leite UHT. No entanto, e já antes da semana da Páscoa, foi notória a desaceleração e alteração no comportamento de compra”, revela.

Referindo-se ainda ao encerramento no canal Horeca, a diretora-geral da ANIL explica que, apesar de algum consumo estar a ser transferido para dentro de casa, há muitas perdas em algumas categorias. “Ao pequeno-almoço, os portugueses podem transferir o consumo de leite, de iogurtes e de manteiga para dentro de casa. Mas nos almoços, pequenos consumos que eram feitos na restauração, não é possível, como no caso dos pacotes de manteiga”, afirma. Ainda há as perdas provocadas na área do turismo. “O consumo que os turistas faziam não passa para dentro de casa. É um consumo completamente perdido em leite, iogurtes e em queijo”, exemplifica.

EXPORTAÇÕES SOFREM UMA QUEBRA
As exportações, também devido à transformação do comportamento dos consumidores nos mercados de exportação, estão a sofrer uma queda. O que agrava ainda mais a situação. “Em termos internacionais, nota-se uma desaceleração ao nível das exportações dado que os mercados estão praticamente fechados. Esta realidade pende-se com a estagnação das diferentes economias, com as alterações provocadas ao nível dos padrões de consumo dos mercados de destino”, explica a diretora-geral da ANIL.

As próprias empresas a operar em Portugal já viram muitas das encomendas serem canceladas. “Tal como cá, a procura assenta em produtos locais e de primeira necessidade, deixando de lado produtos de especialidade, pelo que muitas encomendas foram canceladas. O mesmo se verifica, ainda que por razões distintas, para os produtos industriais, com as economias estagnadas”, explica a responsável.

Na área logística, a fileira está a operar normalmente. “Ao estarem incluídos em sectores prioritários, a transformação e o transporte de alimentos, as empresas encontram-se, de forma geral, a operar dentro uma nova realidade e sem grandes perturbações a nível nacional”, conclui a diretora-geral da ANIL

FONTE: Revsita Hipersuper

 

 

 

 

 

 

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