Leite: O deputado desinformado

09 fevereiro 2018

É deveras curioso que uma pessoa ligada à área das ciências exactas (Engenharia), não apresentou um único dado concreto, quanto mais um fundamento científico.

"O leite é um dos maiores embustes do século XX" e "Um cidadão informado não bebe leite", referiu recentemente André Silva. É deveras curioso que uma pessoa ligada à área das ciências exactas (Engenharia), não apresentou um único dado concreto, quanto mais um fundamento científico. O caso adquire contornos de nocividade agravada quando é um deputado eleito a tentar manipular o modo de vida dos cidadãos.

O consumo de leite teve início há cerca de 7,500 anos na Europa central (University College London ) e adveio de uma alteração genética que permitiu aos humanos a ingestão do leite de vaca sem adoecer. Um processo semelhante, mas inverso, ao que impossibilitou os humanos de sintetizarem Vitamina C, neste caso uma mutação do gene GLO.

Afirmou André Silva que "nos últimos anos", os consumidores têm tido mais informação e por isso "fazem opções mais conscientes". Ora a grande parte dos "estudos" críticos do leite tiveram origem nas últimas duas décadas, sensivelmente de 2000 para cá, o que coloca um hipotético "embuste" no sec. XXI e não sec. XX, como afirmou. Preciosismo da minha parte ou mais uma indicação que o autor elaborou uma opinião, no mínimo descuidada?

É curioso e não indissociável, que os tais estudos anti-consumo de leite tiveram o mesmo ritmo expansionista que a indústria dos produtos substitutos do leite, nomeadamente a bebida de soja. Isto para enquadrar a acusação do autor sobre a mão invisível da indústria do leite na manipulação mediática, como se todos os que apareceram depois não tenham executado exactamente as mesmas técnicas, como patrocinar abundantemente organizações de profissionais de saúde pelo mundo fora, para depois estas efectuarem os tais "estudos".

Sejamos claros, o leite faz mal? Sim e não. Sim, se como qualquer outro alimento for ingerido em excesso. Não, se for ingerido dentro das quantidades "normais". Um estudo do Belgian Bone Club e da European Society for Clinical and Economic Aspects of Osteoporosis, Osteoarthritis and Musculoskeletal Diseases, publicado no National Center for Biotechnology Information, "Effects of Dairy Products Consumption on Health: Benefits and Beliefs", clarifica o assunto.

O leite e seus derivados fornecem um pacote de nutrientes essenciais difícil de obter em dietas com pouca ou nenhuma ingestão dos mesmos. Suplementos para suprir necessidades de cálcio, podem ter efeitos secundários quando misturados com antibióticos, além de que não fornecem o restante que o leite providencia, proteínas, potássio e magnésio.

A principal crítica relativa aos malefícios do leite para a saúde refere-se aos problemas cardiovasculares, de novo, um pouco de informação clarifica o tema. O problema está nas gorduras saturadas, que têm os 13 gramas diários como máximo diário aconselhável, num modelo muito conservador, a F.D.A refere abaixo das 20 gramas. Ora, um único copo de leite gordo (250ml) atinge logo cerca de 40% desse montante, dois copos, que será um consumo moderado e excederá o limite em conjunto com a restante alimentação. Contudo se for um copo de leite meio gordo a percentagem cai para os 20% e se for um copo de leite magro cai para os 2%, ou seja pode beber um litro de leite magro por dia que nem sequer 10% do limite para as gorduras saturadas ingere.

António Vaz Carneiro, profissional de saúde com mais de 40 anos de actividade, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e dono de um currículo invejável, com destaque para o cargo de Director do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência da Faculdade de Medicina de Lisboa, foi claro nas suas declarações há cerca de um ano a um Jornal, "O leite pode ser um excelente alimento" e "Pode beber leite à vontade porque não existem bases científicas que nos permitam dizer que o leite faz mais mal que bem".

E os substitutos? O consumo de soja, por exemplo, é referido como sendo causador de infertilidade masculina (NHS.UK), ou que cerca de 94% da sua produção nos EUA advém de culturas geneticamente alteradas (USDA), ou que o seu cultivo é uma ameaça ao ambiente no Brasil (Foundation for Environmental Conservation) e causa uma erosão elevada dos solos (WWF&USDA).

Existe contudo um ponto no qual concordo em parte com o autor, as condições de produção de leite de vaca são em muitos casos inadequadas e aí exige-se um controlo muito superior, de resto o deputado do PAN é ele próprio um embuste, e convencido, pois afirma "num tempo de fraude universal, contar a verdade é um acto revolucionário", julgará ele que só a sua verdade existe?

Disclosure: Consumidor de leite de vaca até há cerca de seis anos, data a partir da qual testei os auto-proclamados benefícios da bebida de soja. Regressei ao leite de vaca há cerca de quatro meses convencido que a soja é um falso "profeta".

FONTE: Revista Sábado

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