Tempestade num copo de leite

06 novembro 2017

E um dos alimentos mais antigos, mas nunca como agora esteve tão debaixo de fogo. Perante a alternativa das bebidas vegetais e acusações que o relacionam com doenças, o leite reinventou-se e multiplicou-se. Já não é só magro, meio-gordo e gordo.

Sabemos que se bebe há dez mil anos. O leite sempre fez parte da nossa alimentação, desde os tempos em que a agricultura surgiu e os animais foram domesticados.

É bem provável, por isso, que o leitor tenha crescido a ouvir dizer que o leite faz bem, pois é a principal fonte de cálcio, fundamental no crescimento das crianças, bom para fortalecer os ossos e é parte essencial de uma alimentação saudável. E que sem ele os riscos para a saúde são muitos. E é também provável que, pelo menos, há dois anos, tenha começado a ler e ouvir dizer que o leite, afinal, não é assim tão bom. Que é tão nocivo como eram as ameaças que diziam que sem ele ficaríamos expostos a vários problemas de saúde. Como se até aqui médicos, nutricionistas e cientistas nos tivessem dado informação errada.

Primeiro foi a Universidade de Harvard, em 2011, a alertar para o excesso de laticínios no seu guia para uma alimentação saudável. Mas a pedrada no charco veio três anos depois, em outubro de 2014. Um estudo da Universidade sueca de Uppsala, feito durante duas décadas, a um universo de mais de 100 mil pessoas, tornou-se o ponto de não retorno na vida do leite. Associava a alta ingestão de leite a uma maior mortalidade e defendia que era pior para os ossos bebê-lo do que não beber. "Um maior consumo de leite em mulheres e homens não é acompanhado por um menor risco de fratura e, em vez disso, pode estar associado a uma maior taxa de morte. Consequentemente, pode haver uma ligação entre o conteúdo de lactose e galactose do leite e o risco. (...) Os nossos resultados podem questionar a validade das recomendações para consumir grandes quantidades de leite para evitar fraturas de fragilidade."

A partir daqui multiplicaram-se os estudos, as teorias e os mitos. E criaram-se duas fações no mundo da nutrição: os anti e os pró-leite. Dois lados de uma moeda. Para uns é alimento maldito e causador de doenças. Para outros continua a ser a principal fonte de cálcio. Só que o estudo sueco dizia também que era preciso ter cuidado nas interpretações e que, por isso, as suas conclusões não podiam ser usadas para matérias de saúde pública.

"Este ataque ao leite é uma moda que vem da América. É uma ação de guerrilha. Acontece com o leite como, há uns anos, aconteceu com o glúten", acusa Carlos Neves, ex-presidente da Associação dos Produtores de Leite de Portugal (Aprolep). A verdade é que o consumo do leite diminuiu (ver gráfico), continua em queda e as bebidas vegetais apresentam-se hoje como alternativas. São chamados leites vegetais, apesar de a lei não permitir o uso da palavra leite. Uma minoria, se compararmos com a imensidão do mundo do leite, porém há cada vez mais portugueses a escolherem estas bebidas. Segundo a consultora Nielsen, o consumo da bebida de amêndoa cresceu 51% no último ano; a de coco 63%; a de avelã 65%; a de aveia 53%; a de arroz 38% e apenas a de soja, até aqui muito popular, desceu 13%. E não param de aparecer novos sabores de cereais e plantas tão exóticas como caju, cânhamo, espeltaoukamut.

Os produtores de leite de vaca o único com produção expressiva em Portugal responderam com campanhas publicitárias, mas a alteração mais profunda foi a forma como multiplicaram a oferta. Nas prateleiras dos supermercados, há hoje um mundo de leites que vai muito além do que sempre conhecemos: magro, meio-gordo e gordo. "O sistema europeu e mundial de classificação é o mesmo, a diferença está no teor de gordura. Foi isto que a indústria ofereceu ao mercado durante as últimas 30 décadas, mas o consumidor mudou e foi exigindo mais", explica Paulo Leite, diretor-geral da Associação Nacional de Industriais de Laticínios (ANIL).

Ir comprar leite algo que sempre foi tão natural deixou de ser tarefa simples. Antigamente, escolhia-se o tipo de gordura, a marca e a compra estava feita. Agora, pode tornar-se uma aventura, pelo número de variedade existentes. De tal maneira que a ANIL e Aprolep têm dificuldade em dizer quantos tipos de leite existem.

O leite continua a ser dividido em três tipos de gordura, mas não se fica por aí. Pode ser também enriquecido, são os chamados leites funcionais, com fibra ou com cálcio, que vêm responder a uma necessidade especial de quem precise reforçar aqueles nutrientes. "E há outra exigência do consumidor: a origem, a pureza e o bem-estar animal, ou seja, a forma como é produzida a matéria-prima", continua Paulo Leite. É daqui que nascem os leites biológicos que "têm de obedecer a uma produção extracomplexa, por exemplo, se os terrenos são ou não adubados" , explica o responsável da ANIL. E os leites de pastagem, que não sendo certificados como biológicos, aproximam-se nas condições de produção. "Os animais não estão em estábulos, estão livres de estrogénios, pastam em liberdade", reforça Paulo Leite. São estas as verdadeiras vacas que riem e são felizes , como diz um conhecido anúncio publicitário.

E entre todos estes há os leites de seleção. Estes "são recolhidos em produtores selecionados, estamos a falar de excelência ao nível da produção", sintetiza o diretor-geral da ANIL. Mas há ainda mais tipos de leite, dedicados a quem tem problemas de saúde: como o leite sem lactose, para os intolerantes; ou o leite sem as proteínas originais para os alérgicos. E os aromatizados, como o de chocolate para os mais gulosos. Aromas que podem ser associados a leites produzidos de todas as formas, fazendo crescer ainda mais a variedade.

Parece demasiada escolha para cumprir o consumo de duas a três porções de laticínios por dia recomendado pela Roda dos Alimentos Portuguesa, feita em 2003, pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. Estamos a falar de queijo, copos de leite ou iogurtes, não de natas nem de manteiga.

A variedade foi a resposta ao que o sector do leite considera um ataque, mas que obrigou os produtores a olharem para dentro e verem como podiam fazer melhor. O ex-presidente da Aprolep encontra semelhanças noutra moda recente da alimentação: evitar ou retirar alimentos com glúten da dieta. Nos últimos anos, também ancorado em estudos revolucionários, tornou-se hábito consumir alimentos sem esta proteína presente no trigo, centeio, aveia e cevada. O pão ou as massas sem glúten marcam presença hoje nas prateleiras dos supermercados. Apesar de esta proteína ser apenas proibida a quem sofre de doença celíaca, que pode mesmo morrer se ingerir glúten, tornou-se um símbolo de dietas para emagrecer e de uma alimentação saudável. Tal como a maioria da população portuguesa não sofre de doença celíaca, também a maioria não é intolerante à lactose ou tem alergia ao leite.

Mas são muitos os que se voltaram para as bebidas vegetais com o argumento de que é mais saudável do que beber leite. Argumentos que correm na internet com facilidade. "O leite tem vindo a ser um produto de ataque por parte de alguns sectores da população que o liga a problemas de saúde. São correntes. Umas respeitamos quando tem que ver com ideologia, não comer nada animal, ou quando está relacionado com alguma religião. Mas há um limite de conspurcação dos valores nutricionais do leite", acusa Paulo Leite.

Nuno Alvim, presidente da Associação Vegetariana Portuguesa (AVP), contrapõe e defende que este é um fenómeno a nível mundial e que a população vegetariana não para de crescer. São hoje 120 mil em Portugal. "Antes de 2000, era complicado encontrar alternativas nos supermercados. Há uma mudança nos hábitos alimentares dos portugueses, daí que estejam também a crescer os espaços de comida saudável." A associação que dirige faz ações de sensibilização nas redes sociais e nas ruas, com degustações gratuitas. "O assunto é muito abrangente, já não é um bicho de sete cabeças, há cada vez mais famílias portuguesas a comprarem bebidas vegetais."

Uma questão de sustentabilidae
Poder-se-ia pensar que beber ou não beber leite é uma discussão no campo da saúde. Mas vai mais além. Paulo Leite encontra outra justificação para a tendência: "A consciencialização dos fenómenos das alterações climáticas levaram a uma grande fatia dos consumidores, principalmente os mais novos, a estarem atentos a outro tipos de abordagem aos produtos, aí também se inclui o leite."

E aqui vegetarianos e não-vegetarianos, anti e pró-leite concordam. É uma questão de sustentabilidade. Darchite Kantelal, nutricionista da AVP, destaca o tempo, as condições e os meios necessários para produzir um copo de leite. "Calcula-se que para produzir um litro de leite sejam necessários 1,500 litros de água, três vezes mais do que para produzir um litro de bebida de soja. Além disso, a vaca tem de chegar a determinada idade para engravidar. E são precisos terrenos grandes para o gado pastar. A agropecuária ocupa 2/3 dos terrenos no mundo." Por isso, diz Darchite lembra que o Reino Unido foi o primeiro país a adotar medidas de sustentabilidade dos laticínios, recuando na sua produção de 47% para 15%.

Só que também aqui há o reverso da medalha. "Estas bebidas vegetais são produzidas em países longínquos, favorece a economia de outro país e não a nossa. E o equilíbrio ambiental. Basta virar o rótulo para saber de onde vêm", frisa Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas.

Este é outro duelo que alimenta as redes sociais, tendo atingido o auge da discussão com o documentário "Cowspiracy". Um filme de 2014, realizado por Kip Andersen e Keegan Kuhn, que promovia um estilo de vida vegetariano e vegan, argumentando que os problemas ambientais são causados pelo facto de a alimentação dos humanos ser feita à base de animais. Argumentos que não colheram consenso científico, já que a quase totalidade dos cientistas acredita que as alterações climáticas são provocadas por gases com efeito de estufa, libertados pelos combustíveis fósseis. E não pelo impacto da pesca e da agropecuária. "É informação que não é verificada. Em que as pessoas contam as suas histórias como se fosse uma conspiração da indústria para pôr toda a gente a beber leite", defende Carlos Neves referindo-se diretamente ao documentário.

A nível nutricional, as posições também se dividem. "Em termos de saúde, as pessoas que não consomem laticínios até são as que melhor cumprem com o Healthy Eating Index 2010 (índice Alimentar Saudável 2010) e Mediterranean Diet Score (Pontuação da dieta Mediterrânea) e, por isso, vão ao encontro das atuais recomendações nutricionais", diz Darchite Kantelal. Para o nutricionista, e autor do livro "Bem comer, melhor jogar", mesmo se compararmos com uma alimentação de base mediterrânea, não comer leite pode oferecer benefícios a nível nutricional. Sem querer entrar em fundamentalismos, a nutricionista alerta que existe muita contrainfor- mação aos benefícios e aos malefícios do leite. "O que deixa as pessoas confusas e baralhadas e substituem a presença de um [leite] por outro [bebida vegetal] , achando que estão a fazer uma substituição saudável. Mas os dois têm valores muito diferentes entre si", sublinha.

Como não são equivalentes, deixar de beber leite implica substituir os seus nutrientes, como o cálcio, por outros alimentos que o contêm, como as nozes, a couve galega, o tofu ou o feijão.

Mas o leite continua a ser um alimento interessante, é uma proteína a um preço não muito elevado e uma fonte apreciável de cálcio. Cada copo tem 300 miligramas de cálcio e é, facilmente, absorvido pelo intestino, mais do que qualquer outro vegetal. "Dentro das bebidas vegetais, aquele que substitui o leite de vaca é a bebida de soja em termos de perfil nutricional. O seu consumo aparenta estar associado a benefícios de saúde, contudo são necessários mais estudos. Mas não é justo comparar as bebidas vegetais com o leite de vaca apenas do ponto de vista nutricional, pois o seu efeito na saúde é mais importante que os nutrientes que fornecem. O leite de vaca está associado a vários riscos de saúde, enquanto as bebidas vegetais até agora não revelam ser um fator de risco para qualquer doença", defende Darchite Kentalal. Mesmo dentro das bebidas vegetais é necessário fazer distinções e não avaliá-las todas da mesma forma.

O nutricionista alerta ainda que recentes meta-analises relacionam o consumo do leite e queijo com o cancro da próstata, com o linfoma de Non-Hodgkin e doença de Parkinson. "Para não mencionar as hormonas, pesticidas e outros contaminantes presentes no leite. Recentemente também se mostrou que o consumo total dos laticínios está associado ao aumento no risco do cancro do fígado." Mas nos hospitais portugueses, o leite e laticínios não são retirados da alimentação dos doentes, nem mesmo dos oncológicos. E a Ordem dos Nutricionistas Portugueses continua a recomendar dois a três copos de leite por dia. Os estudos que relacionam a bebida com doenças não são considerados credíveis o suficiente.

A prova de que os consumidores olham para as alternativas não está apenas nas prateleiras dos supermercados. O ano passado a Danone comprou a WhiteWave Foods, a maior produtora de soja americana. Um negócio de nove mil milhões de euros, anunciado como um passo no caminho da alimentação saudável. "Em alimentação saudável nada deve ser consumido em excesso. Assim, tanto pode ser mau o leite como os vegetais. O que não quer dizer que o leite principalmente em algumas faixas etárias não fosse consumido em excesso. Não é uma bebida para matar a sede", diz Alexandra Bento.

Proibido a alérgicos e a intolerantes
A maioria da população pode beber leite. Apenas quem seja alérgico às proteínas do leite de vaca (caseínas, betalactoglobulina e alfalactoalbumi- na) ou intolerante à lactose está proibido de beber leite. É o mesmo problema, mas são dois quadros clínicos diferentes. Os alérgicos arriscam-se a uma reação do sistema imunitário, normalmente na pele ou no intestino, pouco depois da ingestão. Já os intolerantes à lactose pessoas que não têm uma enzima no intestino que ajuda a digerir o açúcar do leite, deixando a lactose no tubo digestivo arriscam-se a sintomas como gases, dores de barriga e diarreia. Como se tivessem parado de fazer a digestão.

Depende do grau de intolerância, mas não podem tocar nem no leite nem nos derivados deste. "É algo que causa desconforto e é limitador da vida social, pois quando come fora de casa tem de estar sempre a ver o que come, mas não vai degenerar em mais nada", diz Manuel Branco Ferreira, imunoalergologista.

E mesmo para estas pessoas há leite. São os leites hidrolizados (em pó) para os alérgicos e sem lactose para os intolerantes. "A doença alérgica tem vindo a aumentar, subindo de 1,5% para 2,5%. Mas são todas as alergias e não apenas ao leite. Não é mais sentido" , frisa o médico. E estima-se segundo estudos anglo-saxónicos, dado não existirem dados nacionais que a intolerância à lactose atinja 10% da população. "E mais diagnosticado. Há um aumento do número de casos, mas não sei se é real ou porque há maior consciencialização", explica Manuel Branco Ferreira.

Para a Medicina, está fora de questão deixar de beber leite se não existir um destes problemas de saúde. "É um dogma, na alimentação saudável não está devidamente provado que o vegetal seja melhor do que o animal. Falamos do leite e esquece- mo-nos de outras coisas. Temos os peixes que se alimentam de carcaças de animais e não há ninguém a dizer mal do peixe. Só o que nós cultivamos é que sabemos o que estamos a comer. Mas isso na nossa sociedade não é compatível", frisa ainda o clínico.

Com todas as dúvidas recentemente levantadas, a verdade é que na maioria dos países, a roda dos alimentos aconselha entre duas a três doses de leite ou derivados. E a própria dieta mediterrânica património mundial da Humanidade e na qual a nossa alimentação se deve basear consagra uma fatia importante para os laticínios. Continua a dizer, apesar de tudo, que 18% do que devemos comer deve incluir leite, iogurtes e queijo. Pelo menos, há por onde escolher.

FONTE: Expresso

 

Associadas

Parcerias

Objectivos

‘‘Os objectivos da ANIL centram-se na defesa dos interesses e representação do sector, no acompanhamento das matérias legislativas, normativas, ambientais, económicas e técnicas que contribuam para o desenvolvimento da indústria láctea em Portugal...

Calendário

Seg. Ter. Qua. Qui. Sex. Sáb. Dom.
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
17
18
19
20
22
24
25
26
27
29
30

Redes Sociais

Top
Cookies make it easier for us to provide you with our services. With the usage of our services you permit us to use cookies.
More information