“Se não fosse o sal, o pão era um produto fantástico

08 agosto 2017

A bastonária dos Nutricionistas frisa que é preciso atuar nas escolas e centros de saúde e diz-se preocupada com sites e blogues de dicas alimentares. E insiste que dieta mediterrânica é a melhor.

Sabia que o grão-de-bico tem mais calorias, gorduras e açúcares que a batata e o feijão manteiga? E que a laranja tem menos calorias, gorduras e açúcar do que a maçã? Estas são apenas algumas das informações que pode encontrar no livro “Comer bem é o melhor remédio”, da autoria da bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Alexandra Bento. Nele poderá encontrar ainda dicas sobre alimentos recomendados e alimentos a evitar, com destaque para o sal, o açúcar e as gorduras, bem como mais de 40 receitas saudáveis.

O Observador aproveitou a publicação recente do livro para conversar com a doutorada em Ciências do Consumo Alimentar e Nutrição pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. Dos receios em torno da multiplicação de blogues, páginas nas redes sociais e livros com truques e dicas alimentares, ao consumo desregrado de suplementos proteicos, passando ainda pelas principais regras de uma alimentação saudável e a defesa da dieta mediterrânica, Alexandra Bento deixou ainda um apelo a que sejam colocados mais nutricionistas nas escolas e nos cuidados de saúde primários.

“Comer bem é o melhor remédio” é nome do livro que acaba de lançar. Porque sentiu a necessidade de o escrever? O que pretendeu com este livro?
A ideia surgiu porque cada vez se fala mais em alimentação e nutrição e na relação com a saúde. Há, por outro lado, cada vez mais artigos de opinião, páginas e blogues na Internet e livros. Acho que faltava um livro que falasse de forma transversal e com rigor científico daquilo que é o bem comer. Quem pretenda saber mais como organizar os dias alimentares tem também aqui um documento escrito de forma simples, de leitura fácil.

A verdade é que nos últimos anos tem-se assistido a uma explosão de dietas e dicas alimentares, que correm muito através das redes sociais, com a tal linguagem acessível. Como olha para esta realidade?
Com muita preocupação porque, de facto, parece que há um crescendo e um multiplicar de informação. O aumento de informação é positivo, mas quando não tem rigor nem credibilidade temos de olhar com preocupação porque é difícil fazer a destrinça entre o que é certo e errado. Esta foi outra das minhas preocupações e por isso no meu livro digo quais as autoridades da matéria que são, a nível internacional, a Organização Mundial de Saúde (OMS), e, a nível nacional, o Ministério da Saúde e a Direção Geral da Saúde (DGS). Digo ainda que os profissionais que têm verdadeira confiança para veicular estas informações são os profissionais de saúde, sob o olhar atento das Ordens. E se alguém vir que um profissional está a trabalhar com preceitos éticos menos bons pode fazer queixa à Ordem.

Têm recebido muitas queixas nos últimos anos?
Todas as ordens recebem queixas dos seus profissionais. Também recebemos, mas queixas que resultassem em penas graves não tivemos. Nunca expulsámos ninguém, nem suspendemos. Outra coisa é o exercício ilegal da profissão. A Ordem tem noção disso e quem desconfiar dessa prática deve também denunciar à Ordem dos Nutricionistas. Já enviámos várias queixas dessas para o Ministério Público. Qualquer cidadão quando desconfia que um profissional não tem habilitações deve questionar a Ordem dos Nutricionistas porque as Ordens têm mecanismos facilitadores da sua ação.

E como olha para a realidade dos blogues?
Ainda com mais preocupação porque muitas vezes nem sequer se consegue chegar ao autor. E se a informação for inócua ok, mas nem sempre é assim. Denunciamos ao Ministério Público, mas é difícil chegar ao autor. Nem têm noção do trabalho que isto dá.

Que cuidados devem as pessoas ter antes de seguir uma dieta alimentar?
As pessoas devem, antes de mais, fazer uma revisão dos seus dias alimentares. A partir daí devem fazer uma identificação dos erros que cometem e proporem-se a alguma ação de mudança. Num mundo perfeito todos os cuidados de saúde primários teriam um nutricionista mas como não é um mundo perfeito a pessoa, caso tenha disponibilidade económica, deve procurar o auxílio de um nutricionista. Se todos tivéssemos literacia alimentar e nutricional adequada só nos deixaríamos enganar se quiséssemos.

Mas quais as principais regras para ter uma alimentação saudável?
Se tentarmos reduzir o sal, o açúcar e a gordura já estamos no caminho certo e vamos ter ganhos de saúde imensos a médio e longo prazo. Se por acaso a pessoa precisar de perder peso provavelmente precisará de um aconselhamento profissional. Mas são duas conversas muito diferentes: a da alimentação saudável e a da dietoterapia. Esta última implica um plano alimentar adaptado a uma situação de saúde que carece de alterações em termos nutricionais.

E quais os maiores erros alimentares que as pessoas cometem?
Além do consumo em excesso de sal, de açúcar e gordura, consumimos pouca fruta e hortícolas. Devemos comer mais. Quem aumenta quantidade de frutas e hortícolas melhora a sua alimentação. A fruta é um alimento de prestígio em termos de saúde, mas depois não temos a noção da quantidade que devemos consumir e achamos que até podemos comer a mais. Nos restaurantes muitas vezes é mais cara do que as sobremesas doces. E depois há mitos em volta da fruta, de que tem muito açúcar, mas não nos podemos esquecer que também precisamos de hidratos de carbono. Não precisamos de viver aterrorizados.

Porque é que então o excesso de peso e a obesidade são um problema de saúde em Portugal?
Porque estamos afastadíssimos dessa dieta.

Quais os benefícios ou malefícios de consumir produtos sem glúten e sem lactose não sendo intolerante?
Não me parece bem que quem não tem intolerância exclua o glúten e a lactose. Se não tenho nenhuma doença ou mau estar porque é que vou retirar? Sempre que excluo produtos da alimentação empobreço-a, até porque, neste caso, os alimentos que têm glúten como o centeio, o trigo e cevada são importantíssimos. Se não fosse o sal eu diria que o pão era um produto fantástico. Em minha opinião a legislação devia ser revista no sentido de reduzir ainda mais o sal do pão.

A maior preocupação da população com a alimentação parece, muitas vezes, estar mais relacionada com a imagem corporal do que propriamente com os ganhos em saúde. Estou enganada?
Não. Também partilho dessa opinião, mas não podemos olhar com olhar negativo. Se isso servir para que possamos ter uma população com hábitos alimentares mais saudáveis, ótimo.

E quando essa busca do corpo ideal leva ao consumo de suplementos, cada vez mais disponíveis no mercado?
A Ordem dos Nutricionistas tem manifestado essa preocupação. É cada vez mais fácil encontrar suplementos nos supermercados, em ginásios e na Internet. É uma área que já devia ser regulada e é uma preocupação de algumas autoridades. Acredito que num futuro próximo seja regulado. É que as pessoas podem correr imensos riscos a consumir estes produtos, podem ser um verdadeiro atentado à saúde porque há risco de sobrecargas proteicas que podem comprometer a função hepática e renal futura. E afastam-se do conceito da alimentação saudável. É um perverter do conceito do que é saudável.

Se tivesse poder executivo, o que faria, no imediato, para melhorar a alimentação dos portugueses?
Colocaria nutricionistas nas escolas e nos cuidados de saúde primários. Não podemos querer que se fale das questões da nutrição sem colocar profissionais nos sítios certos. Há 104 nutricionistas nos cuidados primários, é vergonhoso. O Governo prometeu que este ano abria 55 vagas para colocar um nutricionista em cada agrupamento de centro de saúde e ainda não se viu nada. E está difícil de se ver. E é preciso também que nas escolas haja quem trate da alimentação. Isso vai para além da ementa saudável e equilibrada. O que está no papel não é o que entra na boca da criança. Ou porque há incumprimentos ou porque não há corretas técnicas de confeção e preparação dos alimentos. Disponibilizando um reforço de um a dois milhões de euros a esta causa os ganhos no futuro seriam brutais. Mas a máquina não anda.

Por um lado um maior foco dos portugueses na questão da alimentação saudável e da imagem, por outro um Serviço Nacional de Saúde que absorve ainda poucos nutricionistas. Qual a situação atual dos nutricionistas?
O que lhe posso dizer é que as situações de instabilidade profissional têm vindo a aumentar, reflexo da sociedade atual. O Estado está fechado e o emprego é muito volátil, baseado em recibos verdes. Por outro lado há coisas muito interessantes a acontecer como a capacidade de empreendedorismo dos colegas mais novos, que criam interessantes projetos de blogues.

FONTE: Observador

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