Quando é que começámos a preocupar-nos as dietas?

04 outubro 2018

A profissão de nutricionista é recente em Portugal. As políticas nutricionais ainda mais. Mas as preocupações com a alimentação saudável começaram logo depois da I Guerra Mundial.

Ao pequeno-almoço, acende a televisão e descobre qual o superalimento do dia. No caminho para trabalho, liga o rádio e fica a saber como um comprimido o faz emagrecer em três tempos. Na hora de almoço, vai à livraria e não se consegue decidir entre as dezenas de livros de receitas e dietas com nomes de que nunca tinha ouvido falar. No ginásio, deixa-se fascinar com a variedade de suplementos à disposição. E quando chega a casa, perde-se na quantidade de informação que encontra na internet.

Com mais ou menos preocupações, as questões da nutrição passaram a estar presentes na vida dos cidadãos. Em parte, por causa do esforço dos nutricionistas. Embora a profissão seja jovem, com cerca de 40 anos, a Associação Portuguesa de Nutrição (antes Associação Portuguesa dos Nutricionistas) têm-se esforçado por colocar os profissionais onde julga que são mais importantes: nos hospitais e centros de saúde, na promoção da saúde pública ou nas decisões sobre políticas nutricionais. Os nutricionistas estão ainda presentes na restauração coletiva, como consultores na indústria alimentar ou na implementação de sistemas de gestão da segurança alimentar em restaurantes.

“O nutricionista tem a vantagem de ser um profissional de saúde com um conhecimento abrangente do setor alimentar. Nem todos concordarão comigo, mas a meu ver é uma mais valia”, diz ao Observador Célia Craveiro, presidente da associação. “Mas não fomos criados para o tratamento, somos formatados para a prevenção.”

À medida que a nutrição foi ganhando visibilidade, houve quem se fosse aproveitando do momento alto para também conseguir destaque e dinheiro. “A nutrição não é exclusiva dos nutricionistas. Mas acontece-nos como aos treinadores de futebol: toda a gente acha que consegue fazer o mesmo”, diz a nutricionista. “Qualquer um pode criar uma dieta. E é isto que os nutricionistas têm de salvaguardar, fazê-lo com muito rigor, para não serem só mais um.” Como nas outras áreas da saúde, no entanto, há sempre maus profissionais, alguns com muito mais destaque do que a classe desejaria.

É à Ordem dos Nutricionistas que cabe o papel de fazer cumprir os regulamentos da profissão, com o poder disciplinar sobre os seus membros. Nascida em 2010, a Ordem regula o acesso à profissão de nutricionista, que integra profissionais formados em ciências da nutrição ou em dietética. “Em Portugal, deixou de fazer sentido a distinção entre nutricionistas e dietistas, porque, independentemente da licenciatura, todos os que estão registados na Ordem são nutricionistas”, diz Célia Craveiro, que é consultora na indústria alimentar. A profissão de dietista surgiu muito antes da de nutricionista, mas estava confinada aos hospitais, como técnicos de apoio aos médicos na parte alimentar.

O primeiro Curso Superior de Nutricionismo surgiu na década de 1970, na Universidade do Porto, na altura impulsionado por médicos que valorizavam as questões da nutrição. Começou por ser um curso de três anos (bacharelato). Depois passou a cinco anos, tendo os primeiros licenciados em Ciências da Nutrição completado o curso em 1988. Foi no seio deste grupo de alunos que nasceu a, então, Associação Portuguesa de Nutricionistas. Ao completar 35 anos, em 2017, a associação mudou o nome e os estatutos de forma a corresponderem às principais linhas de ação da associação: a atualização e formação técnico-científica dos profissionais.

A nutrição no desporto é uma área em expansão
Entre as preocupações dos nutricionistas estão a segurança alimentar, mas também a disponibilidade alimentar (se está acessível, se o uso é adequado ou se a produção e consumo são sustentáveis). Para Célia Craveiro, é a preocupação com a sustentabilidade — e, consequentemente, com o impacto ambiental da produção e transporte de determinados alimentos — que distingue os nutricionistas sérios de quem se limita a criar dietas da moda.

Outra das preocupações está relacionada com a alimentação saudável — individual ou coletiva — e que pode ser desenvolvida na escola ou no consultório, nos restaurantes, nos estabelecimentos prisionais ou na área do desporto. “A nutrição no desporto é uma área que está em expansão. É uma área que é trabalhada com muita evidência científica”, diz a nutricionista. “As outras áreas também, mas não são tão apelativas.”

A história da nutrição no desporto é quase tão antiga como o próprio desporto e, sem dúvida, muito mais antiga que a profissão do nutricionista. “É dos Jogos Olímpicos da Antiguidade que nos chegam os primeiros relatos de alimentação para os desportistas. Milo de Crótona, um dos primeiros grandes heróis do desporto, descrevia, no século VI a.C., a sua alimentação diária: nove quilos de carne, nove quilos de pão e 10 litros de vinho”, conta ao Observador Rodrigo Abreu, responsável pela consulta de nutrição do desportista na CUF Alvalade. “Mais tarde, Hipócrates, o pai da Medicina, recomendava carne de cabra para os saltadores, de touro para os corredores e de porco para os lutadores.”

Na altura, como agora, o objetivo dos atletas era potenciar o desempenho na modalidade que praticavam, fosse pela melhoria do rendimento, da composição corporal ou, tão simplesmente, para se sentirem bem enquanto praticam desporto. A grande diferença entre a Grécia antiga e os dias de hoje é a investigação científica que tem sido feita para validar as opções tomadas. Além disso, o dinheiro envolvido nas competições desportivas aumentou incomparavelmente as exigências sobre os atletas e as equipas que os acompanham (técnicos, dirigentes e profissionais de saúde).

Recuamos à primeira metade do século XX para encontrar os primeiros estudos experimentais e observacionais na área da nutrição desportiva. “Levine e os colegas mediram as variações na glicemia — a quantidade de açúcar no sangue —, em 20 atletas nas maratonas de Boston de 1923 e 1924 e registaram melhorias no tempo de corrida quando se consumiram hidratos de carbono durante a prova”, conta Rodrigo Abreu. “Desde então, a ciência em torno da performance [desempenho] nunca mais parou de crescer.”

O aumento do interesse também aumentou a quantidade de informação e de produtos disponíveis que prometem melhorar o desempenho. Graças a isso, os nutricionistas passam grande parte do tempo a desconstruir as ideias erradas com que os atletas (ou cidadãos) chegam à consulta e outra parte do tempo a reeducar esses atletas sobre a alimentação e uso seguro dos suplementos.

Rodrigo Abreu rejeita as generalizações ou mesmo as recomendações nutricionais por modalidade. “A individualização é o aspeto mais importante no aconselhamento alimentar de qualquer atleta. Um mesmo jogador de futebol, se jogar uma vez por semana, tem cuidados alimentares diferentes daqueles que se aplicam se tiver de disputar três jogos em 10 dias.”

O movimento vegetariano começou na primeira metade do século XX
Atualmente assistimos a um multiplicar de informação relacionada com nutrição e dietas e até à ação de alguns movimentos alimentares específicos, mas as primeiras manifestações de preocupação alimentar surgiram logo no princípio do século XX. A Primeira Guerra Mundial deixou claro que a ciência podia ser usada com fins negativos e as pessoas começaram a duvidar daquilo que a ciência e a industrialização lhes fornecia, incluindo a alimentação. Também em Portugal, por volta de 1920, surgiram movimentos que promoviam o vegetarianismo, os alimentos crus ou o naturismo. Os primeiros movimentos terão surgido no Porto, impulsionados pelo médico Amílcar de Sousa.

“É a primeira vez que aparece uma preocupação com a alimentação a nível global, com muitas famílias envolvidas”, diz ao Observador Pedro Graça, diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral de Saúde (PNPAS/DGS). “Até ao 25 de abril [de 1974] havia alguma preocupação com a alimentação saudável, mas não posso dizer que era o grosso da população.”

Em meados do século XX, a investigação em nutrição começou a dar os primeiros passos em Portugal. Francisco Gonçalves Ferreira, secretário de Estado da Saúde e Assistência entre 1970 e 1972, foi o grande impulsionador desta área de investigação. O médico dedicou toda a sua carreira profissional à promoção da Saúde Pública e percebeu que as áreas da alimentação e nutrição humana não estavam suficientemente desenvolvidas. “A década de 1970 foi o primeiro grande boom de produção científica na área da nutrição”, diz Pedro Graça. Um ciclo que se estendeu até 1980, com a realização do primeiro Inquérito Alimentar Nacional. “Se tivéssemos continuado esse caminho, estávamos muito lá em cima”, afirma o nutricionista. Mas não continuámos.

Foi também durante os anos 1970 que se criou o Curso Superior de Nutricionismo da Universidade do Porto — que mais tarde deu origem à Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação, na mesma universidade. Esta primeira escola de nutrição foi criada pelos médicos Francisco Gonçalves Ferreira e Emílio Peres, considerado o pai da educação alimentar em Portugal.

“Esta deve ter sido das primeiras e únicas escolas de nutrição na Europa que, desde a sua raiz, sempre foi independente da Faculdade de Medicina”, nota Pedro Graça. A criação do curso de nutrição e de medicina dentária, mais ou menos na mesma altura, foi uma forma de dar resposta ao excesso de alunos na Faculdade de Medicina na Universidade do Porto, mas também “permitiu criar um corpo de pensamento autónomo”.

E o que é que aconteceu depois dos anos 1980? Em 1985, Portugal assinou o tratado de adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), que colocou grandes entraves a uma política de nutrição autónoma, considera Pedro Graça. Portugal estava dependente dos subsídios à agricultura, mas as imposições da CEE implicavam também uma redução da capacidade agrícola do país — a sua principal área de atividade. Apesar de, nos anos 1980-90, não se ter evoluído muito na política alimentar, Pedro Graça refere que foram os anos de ouro na educação nesta área. A primeira Roda dos Alimentos surgiu logo em 1977, com o contributo de Emílio Peres, e depois foi sendo divulgada nas escolas.

Nos anos 1990 inicia-se um novo ciclo de interesse para as ciências da nutrição: as crises alimentares e a importância de fazer os alimentos circularem de forma segura no Espaço Económico Europeu (EEE). Depois da crise das vacas loucas (encefalopatia espongiforme bovina ou BSE, na sigla em inglês), que surgiu em meados dos anos 1980 em Inglaterra, ou o escândalo das dioxinas nos frangos na Bélgica, em 1999, ficou claro que a livre circulação de produtos teria de ter meios de controlo próprios. A partir daí, apostou-se na área da segurança alimentar, com a implementação de sistemas HACCP (Análise de Perigos e Controlo de Pontos Críticos) na Europa, em 1993, a criação da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA), em 2002, e da ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica), em 2005.

A parte da “nutrição pura e dura”, mais relacionada com os nutrientes e os impactos na saúde, “ficou sempre um bocado para trás”, diz Pedro Graça. Até que, em 2006, os ministros europeus se comprometeram a combater a obesidade, durante uma conferência dedicada ao tema, organizada pela região europeia da Organização Mundial de Saúde (OMS). Foi a partir daí que a política de nutrição deixou de estar só relacionada com as questões de segurança alimentar. As mudanças foram acontecendo lentamente, mas, logo em 2007, a Direção-Geral da Saúde (DGS) criou a Plataforma contra a Obesidade. “Na altura foi muito inovadora, mesmo em termos europeus”, diz ao Observador João Breda, o primeiro coordenador dessa plataforma.

“Em Portugal, cerca de 32% das crianças com idades compreendidas entre os sete e os nove anos apresentam excesso de peso, sendo 11% obesas. Além disso, 24% das crianças em idade pré-escolar apresentam excesso de peso e 7% são obesas”, lê-se no documento de apresentação do programa, referindo-se a dados de 2004. “Na idade adulta, os indicadores são ainda mais preocupantes, uma vez que 50% da população tem excesso de peso, sendo 15% obesa.”“Portugal é um dos países com maior prevalência de obesidade na Europa”, acrescenta João Breda, que atualmente trabalha na OMS. E parte do problema foi causado porque, depois do fim da ditadura, aumentámos o consumo de açúcar, diminuímos a atividade física e praticamente abandonámos a dieta mediterrânica. Esta dieta tem demonstrado ligação a vários benefícios em saúde, nomeadamente, menor incidência de cancro, de doenças cognitivas e cardiovasculares, assim como tem demonstrado vantagens na síndrome metabólica, na obesidade e na diabetes tipo 2, conforme um relatório da OMS.

A aposta da DGS nas recomendações alimentares continuou e, em 2012, foi criado o Programa Nacional de Promoção da Alimentação Saudável. Em 2015, foi realizado o segundo Inquérito Alimentar Nacional. E já em 2017, surgiu a Estratégia Integrada para a Promoção da Alimentação Saudável, “que documenta um conjunto de propostas de intervenção, consensualizadas por um grupo de trabalho interministerial, refletindo a opinião dos ministérios das Finanças, Administração Interna, Educação, Saúde, Economia, Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, e Mar”, refere o site Nutrimento. “Portugal está no caminho certo em matéria de políticas de nutrição”, afirma João Breda.

Para Pedro Graça, o próximo momento histórico na nutrição poderá passar por uma avaliação da qualidade da informação disponível. “Toda a gente pode falar porque a falta de conhecimento ainda é grande.” E entre as coisas que se dizem estão as chamadas “dietas da moda”. “Quem não tem conhecimento suficiente e não se atualiza corre sempre o risco de cair nessas dietas. Mesmo os nutricionistas”, admite.

Dietista vs nutricionista
A nutrição em Portugal segue a corrente sul-americana, em que o nutricionista é um promotor de saúde pública e trabalha a saúde como um todo, explica Célia Craveiro. Na corrente anglo-saxónica, o foco é mais no indivíduo.

Também em termos legais e de acesso à profissão, não se pode comparar dietista e nutricionista com “dietitian” e “nutritionist” (em inglês). Em Portugal, ambos os profissionais têm formação superior e estão regulamentados pela Ordem dos Nutricionistas.

Dieta mediterrânica
A dieta mediterrânica baseia-se em produtos frescos, sazonais e locais. Caracteriza-se por um consumo alto de produtos à base de plantas (frutas, vegetais, frutos secos e cereais) e azeite, um consumo moderado de peixe e aves, um consumo baixo de laticínios, carne vermelha, carnes processadas e doces e um consumo moderado de vinho, normalmente às refeições.

FONTE: Observador

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