As melhores estratégias de ataque à obesidade

05 julho 2018

Atacar a obesidade infantil, da genética à prateleira do supermercado

Investigadores portugueses participam num estudo que envolve 31 organizações de 16 países europeus e que conta com um financiamento de dez milhões de euros. O objectivo é identificar as melhores estratégias de ataque à obesidade.

Desde o rótulo de um produto e do lugar que ocupa na prateleira do supermercado, ao ambiente em que vivemos, passado pela predisposição genética e por factores biológicos, tudo conta quando se avalia o actual fardo da obesidade na sociedade. Para estudar e atacar o problema de saúde pública, o projecto STOP (Science and Technology in childhood Obesisity Policy) vai apoiar-se nos dados recolhidos por diferentes projectos em vários países sobre as crianças e adolescentes europeus e, com a análise e consolidação desta informação, definir “políticas efectivas e sustentáveis para prevenir e gerir a obesidade infantil”. O Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) é um dos parceiros nesta missão que mereceu um financiamento de dez milhões de euros da União Europeia, através do programa Horizonte 2020.

O foco principal do STOP está nos “impactos cumulativos de exposições múltiplas em crianças vulneráveis e socialmente desfavorecidas e nas suas famílias, que devem ser um alvo prioritário para a luta contra a obesidade infantil na Europa para alcançar um ponto crítico e ter sucesso”, define o programa da acção europeia. E adianta: “O STOP identificará estágios críticos na infância (a partir de exposições pré-natais) nas quais as intervenções podem ser mais eficazes e eficientes”. Em declarações ao Público, Henrique Barros, epidemiologista que coordena a equipa do ISPUP envolvida no projecto, explica que o complexo e completo diagnóstico deverá incluir factores genéticos, biológicos, comportamentais, influências sociais, culturais e até comerciais que contribuem para a epidemia da obesidade.

“Há três frentes principais de ataque”, esclarece o investigador. Os investigadores vão, por um lado, dedicar-se à “compreensão de aspectos de natureza biológica” onde será explorado o impacto da genética e da epigenética na predisposição para a obesidade e os efeitos da pressão do ambiente no nosso organismo. “Se o problema da obesidade fosse um problema genético, não subia em 20 anos, porque em 20 anos não muda a genética de ninguém”, argumenta Henrique Barros, acrescentando que o que se deve investigar é a exposição a substâncias conhecidas como disruptores endócrinos que podem “ligar ou desligar” a disponibilidade genética para engordar.

“O ginásio não serve para nada”
Por outro lado, uma outra frente de ataque dos investigadores encontra-se nos factores de natureza socioeconómica que podem ou não favorecer a prevalência de obesidade. Um dos pontos de partida, lembra Henrique Barros, será tentar perceber todas as razões que levam a que “nos países pobres, os ricos são gordos e os pobres são magros, e nos países ricos, os ricos são magros e os pobres são gordos”. Aqui, diz o epidemiologista, será interessante investigar “qual é a relação entre as condições de vida dos indivíduos e os ambientes potencialmente obesigénicos, ou seja, as circunstâncias que limitam ou condicionam a nossa actividade”. Importa o sítio onde vivemos, se é seguro ou não, importa estimular as pessoas a andar menos de carro e mais a pé, importa que mudem os hábitos do dia-a-dia optando, por exemplo, por subir as escadas em vez do elevador.

Por outro lado, uma aula num ginásio parece não ter tanta importância como muitos acreditam. “O ginásio está mais ou menos provado que não serve para nada. É mais ou menos como os comprimidos para perder o apetite. O que é importante é que as pessoas tenham condições de vida que promovam a actividade física continuada, não extenuante, que não tenha picos, choques”, diz Henrique Barros. O especialista acredita que a questão das desigualdades sociais é central neste projecto e no combate à obesidade de uma forma geral. “Há 30 anos, atacámos a fome dando de comer às pessoas nas escolas. Isso é pacífico hoje. Agora, precisamos de encontrar qualquer coisa semelhante, que não sei bem o que é, mas que seja capaz de mudar os comportamentos.”

Por fim, uma terceira frente de ataque está na definição de políticas de prevenção e gestão do problema, um tema onde investigadores, decisores e empresários vão ter de se juntar e alcançar um consenso em nome do bem comum. “Um dos principais objectivos do projecto é reunir os principais actores do sector de saúde e alimentos, incluindo cientistas, profissionais de saúde, formuladores de políticas governamentais, agências nacionais de saúde pública, organizações internacionais, sociedade civil e organizações empresariais”, refere o programa da iniciativa, acrescentando que se pretende encontrar “soluções eficazes e sustentáveis para o problema da obesidade infantil a nível da União Europeia, nacional e local”.

Henrique Barros dá alguns exemplos de decisões que podem fazer toda a diferença como o local onde se coloca um produto saudável nas prateleiras do supermercado, quando já sabemos que a tendência é comprarmos mais o que está (literalmente) à frente dos nossos olhos. Entre outras políticas, o STOP avaliará a possibilidade de os governos europeus usarem alavancas – como impostos, rótulos nutricionais e restrições de comercialização de alimentos e bebidas – para combater a obesidade infantil.

Realidade alarmante
O STOP é liderado pelo Imperial College Business School do Reino Unido e é actualmente o maior projecto de investigação na Europa para combater a obesidade infantil numa altura em que se prevê que a curva da obesidade chegue em 2025 ao ponto de termos um obeso em cada três pessoas em muitos países europeus. Sabe-se que, em todo o Sul da Europa, em partes da Europa Central e Oriental e no Reino Unido, mais de uma em cada dez crianças com idades entre os cinco e os 19 anos é obesa. Em países como a Grécia, Malta e Itália, mais de um terço das crianças já demonstram excesso de peso. Em Portugal, os dados mais recentes do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, divulgados em Maio deste ano, indicavam que as prevalências de excesso de peso e obesidade infantil diminuíram entre 2008 e 2016, ano em que 11,7% das crianças eram obesas e 30,7% tinham peso a mais.

Nos próximos quatro anos (de Junho de 2018 a Maio de 2022), o STOP vai reunir e cruzar os dados de 17 coortes [grupo de pessoas que possuem características em comum] de crianças em toda a Europa para assinalar os primeiros sinais de mudanças biológicas que podem conduzir à obesidade e outros indicadores. O contributo português é significativo com o projecto a beneficiar de duas coortes – a Geração 21 (que acompanha mais de oito mil crianças desde o nascimento em 2005 e o Epiteen que começou em 2003 com cerca de três mil participantes com 13 anos que têm sido periodicamente avaliados.

Num documento divulgado pelo ISPUP, sublinha-se que o Inquérito Alimentar Nacional e de Actividade Física (2015-2016), promovido pela Universidade do Porto, concluiu que a prevalência nacional (dos três meses aos 84 anos) de obesidade é de 22,3% e de pré-obesidade de 34,8%. “Isto significa que seis em cada dez portugueses (60% da população) são pré-obesos ou obesos”, assinalam, acrescentando ainda que “a realidade é já alarmante na população infantil, estimando-se que 25,0% das crianças (com menos de dez anos) e 32,3% dos adolescentes (10-17 anos) portugueses já possuem critérios de obesidade ou pré-obesidade”.

No comunicado do ISPUP, Franco Sassi, responsável pelo projecto e professor do Centro de Economia da Saúde e Inovação Política na Imperial College Business School, defende que o STOP “é um investimento significativo da União Europeia para encontrar as abordagens mais bem-sucedidas e eficazes para reduzir a incidência de obesidade infantil e contribuir para que as crianças que já sofrem da doença obtenham o melhor apoio”. E conclui: “Com as taxas de obesidade infantil a duplicar nos últimos 20 anos, nenhum aspecto deste cenário pode ser ignorado.”

FONTE: Público

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