Retoma ganha força em 40% do mercado de exportação português, mas 25% está a travar

22 setembro 2021

Retoma de Espanha, França e Itália este ano em grande nas novas contas da OCDE. Já os crescimentos de Alemanha, Reino Unido e EUA foram despromovidos.

A retoma das economias e do emprego a nível internacional está a ser desigual e esse tipo de divergência também está a marcar os grandes mercados clientes das exportações portuguesas.

De acordo com cálculos do Dinheiro Vivo com base em dados da AICEP, do INE e as mais recentes previsões de crescimento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE), ontem divulgadas no seu panorama (outlook) intercalar, a retoma em 40% do mercado de exportação de Portugal foi revista em alta significativa, mas o ambiente favorável acabou por ser contrariado com o corte no crescimento previsto para mais de 25% desse mercado de clientes.

De acordo com a OCDE, em alta estão Espanha, França e Itália, que nesta edição de setembro podem crescer mais em 2021 do que se previa no outlook de maio.

Estes três países compram cerca de 40% das exportações nacionais totais (mercadorias e serviços). Este bolo conta, portanto, com um dos setores mais penalizados (e voláteis) devido à crise pandémica, o turismo e as atividades relacionadas, como transportes e alimentação.

Espanha é o maior cliente da economia portuguesa. Em 2020, as empresas exportadoras nacionais faturaram com o país vizinho 16,3 mil milhões de euros, ou seja, 22% do total expedido para fora. França ocupa o segundo lugar, com mais de 14% das exportações lusas por sua conta. Itália é o sétimo maior mercado, com 4%. Estes números relativos a 2020 são da AICEP, a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal.

A contrariar o panorama favorável, ontem divulgado pela organização liderada por Mathias Cormann, aparecem Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos, cujas projeções anuais saem agora diminuídas, feitas as contas ao que já se sabe de 2021 (9 meses).

Estes três países absorvem mais de 25% de todas as vendas dos exportadores portugueses ao exterior. Alemanha é o terceiro maior cliente de Portugal, comprando mais de 11% das exportações. Reino Unido é o quarto (8,5%). Os Estados Unidos são o quinto (5,4%).

No Programa de Estabilidade (com informação até meados de abril), o governo dizia que estava à espera de uma retoma de 4% em 2021 (depois de uma recessão de 7,6% em 2020 por causa da pandemia) bastante assente nas exportações, designadamente no turismo.

"Espera-se que as exportações aumentem 8,7% em 2021 e 7,9% no ano seguinte, recuperando da queda de 18,6% em 2020, refletindo não só o aumento da procura externa global, como a retoma do turismo, na expectativa de uma evolução positiva da situação epidemiológica e dos efeitos associados ao processo de vacinação", referia o governo.

Daqui a cerca de três semanas, haverá atualização do cenário português com a proposta do Orçamento do Estado para 2022.

O panorama dual da OCDE
A subida na fasquia de Espanha e Itália foi especialmente relevante nas contas da OCDE. Segundo os novos cálculos da entidade sediada em Paris, a economia espanhola deve avançar 6,8% em 2021, mais 0,9 pontos percentuais (p.p.) do que no anterior outlook, feito em maio.

No entanto, apesar do forte impulso, é de recordar que Espanha sofreu uma das maiores contrações económicas no grupo da OCDE, tendo recuado quase 11% em 2020 por causa dos efeitos da pandemia. Portanto, a retoma significativa esperada para 2021 não chega para apagar totalmente os danos do ano passado.

Neste estudo, que não tem dados sobre Portugal (está focado nas maiores economias desenvolvidas do clube da OCDE), Itália recebe a maior promoção da Europa: cresce 5,9% este ano, mais 1,4 p.p. do que há quatro meses. Em 2020, o mercado italiano tinha recuado que 9%, em todo o caso.

O ritmo da economia francesa, a segunda maior da Europa, também melhora: deve avançar 6,3% depois de uma recessão que levou o produto interno bruto (PIB) a quebrar 8%.

A Alemanha, a maior economia da União Europeia, é que destoa neste grupo. Depois de cair quase 5% em 2020, recupera 2,9% este ano, menos 0,4 p.p. face à projeção de maio.

Mas no geral, a OCDE está mais otimista quanto à Europa, notando os apoios avultados ao investimento público e privado, à construção de infraestruturas. Sublinha o papel do Plano de Recuperação e Resiliência.

O ambiente parece ser de algum otimismo, sobretudo no mundo desenvolvido, sentimento que é diluído pelas perspetivas enfraquecidas ou estabilizadas relativamente a outros mercados. O crescimento da China fica na mesma face a maio, com uma previsão de crescimento de 8,5%. A Índia deve avançar 9,7%, menos duas décimas do que se estimava há quatro meses.

"O forte apoio das políticas macroeconómicas e as condições financeiras favoráveis devem continuar a sustentar a procura nas economias avançadas. Os maiores gastos com investimento na Europa, ajudados pelos fundos do Next Generation EU, e um impulso adicional em despesa com infraestruturas nos Estados Unidos em 2022 são fatores importantes", diz a OCDE.

Mas nada disto é certo. A retoma será "desigual" e a inflação elevada e as carências de vacinação em vários países são vistas como riscos negativos.

"O principal risco negativo é que a velocidade de implantação da vacina e a eficácia das vacinas existentes não interromperão a transmissão de variantes mais contagiosas" do vírus, o que pode significar que será preciso fabricar "vacinas novas ou modificadas".

Neste cenário a OCDE não exclui que possam ser necessárias "novas medidas de contenção mais rígidas", algo que, como se sabe, "enfraquece" a confiança e a procura.

FONTE: Dinheiro Vivo

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