Está a gastar mais dinheiro no supermercado?

29 junho 2020

Sem prejuízo de comerem mais em casa, alguns portugueses sentiram que os preços dos alimentos terão aumentado durante a pandemia. Uma análise do ECO mostra que é mais do que simples perceção.

Todos os dias, milhões de portugueses vão aos hipermercados para abastecer a despensa lá de casa. Ninguém vive sem comer e a pandemia não extinguiu esta espécie de “ritual”. Porém, nem tudo está igual. É preciso usar máscara para prevenir a Covid-19 e as entradas são constantemente controladas por seguranças.

Mas olhando para o talão das compras, muitos consumidores também se aperceberam de que outra coisa terá mudado. Sem prejuízo de estarem a adquirir mais coisas, uma vez que também passaram a consumir mais refeições em casa devido ao confinamento, os preços de alguns produtos aparentam estar mais caros.

Quem acredita ter visto a “fatura” da mercearia a aumentar terá sido surpreendido pela última atualização da inflação pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Segundo o organismo oficial de estatística, os preços em Portugal terão caído no mês do desconfinamento, com o índice de preços no consumidor (IPC) a apresentar o valor de -0,7% em maio. Ou seja, terá havido deflação, isto é, uma redução generalizada dos preços.

Numa primeira análise, os dados parecem desmentir a perceção que muitas famílias tiveram de que as coisas ficaram mais caras nos meses da pandemia. Mas será mesmo assim? O ECO foi procurar saber, afinal, o que se passou para esta perceção se ter instalado entre muitos portugueses.

Um “mergulho” nos dados do INE coloca a descoberto uma realidade de subida generalizada dos preços dos bens alimentares em abril, seguido de recuos em cadeia, ou seja, entre abril e maio. Foi o efeito dos combustíveis que levou o IPC para terreno negativo no mês passado, porque, no que toca aos alimentos, a tendência é mesmo de subida.

É o próprio INE que, em resposta ao ECO, confirma essa subida: “Efetivamente, o IPC apurou em abril um aumento generalizado de preços na maioria das subcategorias da classe dos produtos alimentares e bebidas não alcoólicas, dos quais se destacam os produtos hortícolas e o peixe, crustáceos e moluscos”, afirma fonte oficial do instituto.

Dados adicionais cedidos ao ECO mostram que, em abril, os preços dos produtos hortícolas subiram 7,72% face a março, enquanto a subcategoria do peixe, crustáceos e moluscos registou um aumento de 3,61%. Em termos homólogos, as subidas foram de 6,48% e de 5,69%, respetivamente.

Não foram, porém, as únicas subcategorias a registarem aumentos no mês em que Portugal registou o pico da pandemia, embora a volatilidade histórica destas componentes da inflação seja um fator a ter em conta. No caso das frutas, os preços subiram 1,56% em abril face a março, e registaram nova subida em maio face a abril, de 6,7%.

Aumento de custos ajuda a explicar
Não é claro o motivo exato por detrás destes aumentos, mas os constrangimentos provocados pelo novo coronavírus na economia ajudam na explicação.

Veja-se o caso dos produtos hortícolas, uma subcategoria que abrange dezenas ou mesmo centenas de diferentes produtos, tais como batata, beringela ou alface. Em declarações ao ECO, Domingos dos Santos, presidente da Federação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas (FNOP), que representa fornecedores de todas as marcas de retalho nacionais, confirma que houve “um aumento dos custos em todos os processos”.

Admite, por isso, que as distribuidoras possam ter puxado pelos preços de alguns produtos de forma a mitigar o impacto nas margens de lucro. Mas nega que esses aumentos se verifiquem do lado do produtor. “Confirmo o aumento de custos na produção. Não há aumento de preço de venda pelo produtor, mas é possível que haja um aumento de preços ao consumidor”, indica, reiterando, ainda assim, não serem aumentos “generalizados”.

Dá como exemplo todo o processo desde a encomenda dos produtos pelas grandes superfícies ao transporte até às prateleiras dos hipermercados. Desde logo, um camionista, no passado, “chegava a central e ele próprio carregava as paletes. Agora, é preciso fazer procedimentos, desinfeção, monitorizar a temperatura corporal. Na própria central, as pessoas estão mais afastadas, algumas têm de fazer turnos”, explica.

No caso das carnes, o cenário é diferente. João Bastos, secretário-geral da Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores, garante que o preço no produtor até baixou no período da pandemia.

“Se a carne de porco está mais cara no retalho, não conseguimos encontrar justificações, uma vez que ao produtor o preço baixou (em termos médios) 30% no período compreendido entre a semana 11 e a semana 22 [9 de março a 31 de maio]. Nas semanas 23 e 24 [1 de junho a 14 de junho] já se assistiu à estabilização dos preços, prevendo-se que nas próximas semanas o preço pago ao produtor possa vir a subir mas nunca para níveis sequer próximos dos verificados no primeiro trimestre deste ano”, diz o responsável.

Contas feitas, havendo, o aumento será também no lado da distribuição, acredita: “Se efetivamente houve esse aumento dos preços ao consumidor, só podemos interpretar como um aproveitamento do apelo ao consumo de produtos nacionais para aumentar as margens de lucro na distribuição”, aponta.

O ECO contactou o Continente, que remeteu para a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED). No entanto, mesmo após insistência, não foi possível obter resposta da associação em tempo útil. Contactada, a Associação dos Comerciantes de Pescado também não respondeu. O grupo Dia, dono de insígnias como o Minipreço, não quis comentar, tal como o grupo Mosqueteiros, dono de insígnias como o Intermarché.

Contactado pelo ECO, o Pingo Doce não respondeu diretamente sobre o aumento de preços patente nos dados do INE. Mas a marca da Jerónimo Martins garantiu, contudo, que “não só manteve os seus preços desde o início da pandemia como até aumentou a sua dinâmica promocional”. “Durante abril e maio, o Pingo Doce lançou uma forte campanha promocional em televisão, com grandes promoções em várias categorias de produtos, ao mesmo tempo que divulgava e promovia os produtos nacionais”, sublinhou.

Certo é que o retalho vive um momento de pressão por causa da pandemia, à semelhança da generalidade das empresas, mas forçado a manter as portas abertas para que os portugueses possam ter comida na mesa. Isto traduz-se em mais custos, mas engana-se quem acredita que as grandes superfícies comerciais saíram beneficiadas de tudo isto. A última atualização do INE mostra que o índice de volume de negócios no comércio a retalho afundou 21,6% em abril, depois de uma queda de 5,6% em março.

Para esta variação negativa contribuiu uma queda de 34,3% nas vendas de produtos não alimentares, enquanto os produtos alimentares caíram bem menos: recuaram 5% em abril, depois de uma subida de 9% em março, mês marcado pelo “açambarcamento” de alguns produtos.

FONTE: ECO Economia Online

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