Angola: AICEP espera resultados em ano e meio

13 março 2019

A economia da viagem de Estado: Luís Castro Henriques, presidente do AICEP, diz que a corrida “contrarrelógio” enunciada por Marcelo deve demorar um ano a ano e meio para as empresas que estão em Angola diversificarem investimentos e para os novos investidores planearem a internacionalização

A visita de Estado de Marcelo Rebelo de Sousa a Angola tinha uma forte componente empresarial - realizou-se um Fórum Económico em Benguela na quinta-feira -, não só porque a economia angolana precisa (desesperadamente) de investidores e de diversificar a economia para se tornar menos dependente do petróleo, mas também porque Portugal vê esta oportunidade como forma potencial a internacionalização. Luís Castro Henriques, presidente da AICEP, a agência portuguesa para o investimento externo, acredita que “daqui a um ano ou ano e meio” será possível assistir “a uma diversificação de atividades de empresas que já estão em Angola”, diz ao Expresso.

Numa primeira fase, acredita Castro Henriques, podem começar a ver-se resultados nas empresas que conhecem o país (sobretudo ligadas à área tradicional da construção). "Um segundo passo” que o responsável acredita ser possível tem que ver com “as empresas que não conhecem o mercado”. Esses investimentos vão demorar mais tempo a concretizar-se: "Não se tomam decisões de internacionalização de um dia para o outro. Daqui a um ano ou ano e meio vamos ver essas perspectivas em termos de investimentos”.

Marcelo Rebelo de Sousa falou em vários ocasiões durante a visita num “contrarrelógio" em que se encontra a economia angolana para sair da crise, o que significava uma oportunidade para os portugueses que estão no terreno e conseguem instalar negócios mais depressa que empresários de outras nacionalidades sem afinidade com a língua ou a cultura. “Quem já está já conhece, não vai ensaiar e não vai experimentar, é uma vantagem competitiva que sabem que existe”, disse Marcelo num discurso aos empresários. O próprio Presidente angolano, João Lourenço, apelou aos investidores portugueses, mas num sentido diferente do tradicional. Não para procurar um “eldorado" para dinheiro fácil, mas para criar riqueza.

O sector das bebidas - sumos e cervejas - deve ser a primeira área interessada em ter uma base em Angola, não só porque os angolanos conhecem as marcas portuguesas, mas também porque pode servir de plataforma para o resto do continente: "É preciso olhar para Angola para se exportar para mercados aqui à volta”, diz Castro Henriques ao Expresso.

O percurso de Marcelo, que não se limitou a Luanda mas que se alargou ao Lobito, Lubango e Benguela (para onde fez convergir cerca de 400 empresários dos dois países), foi outro sinal. Angola é um país imenso e as oportunidades não se confinam à capital. “A diversificação também é geográfica, com presença nas províncias” - diz o presidente da AICEP -, "e outro é setorial em termos atividades”.

Agricultura precisa de condições sanitárias
“Há muitas oportunidades no sector agroalimentar”, especifica. “Há pessoas interessadas em fazer agricultura mais intensiva de produtos tradicionais em Angola. Muito à volta da fruta, sempre relacionado com a banana, mas até noutros produtos com outras utilizações.” Luís Castro Henriques acrescenta ainda a existência do interesse em potenciais investidores na agropecuária: “Galinhas e suínos, sobretudo”, diz. "Mas Angola tem muitas condições agrícolas para produzir a montante, como o milho, que permite fazer as rações”.

Por haver esse interesse em investimento estrangeiro no sector agrícola por parte do Governo angolano, mas também porque há protocolos de cooperação entre os dois países, o ministro da Agricultura esteve presente na viagem (assim como o ministro da Economia, Siza Vieira). Capoulas Santos disse ao Expresso numa conversa na estação de comboios de Catumbela que “compete ao Governo criar condições para a existência de investimento privado”.

No entanto, embora haja empresas portuguesas instaladas na área agrícola, o ministro não consegue garantir a existência de muitos candidatos a investir em Angola no curto prazo enquanto não estiverem melhoradas as infraestruturas básicas. Para já, a cooperação entre os Estados concentra-se também ao nível sanitário, para ajudar as autoridades angolanas a garantir qualidade aos bens alimentares produzidos - mas também na formação, por exemplo, para a produção de vacinas para gado.”Sem essa capacidade não se pode exportar para outros mercados”, que exigem garantias ao nível sanitário, explica Capoulas Santos. Só depois é que o terreno fica devidamente preparados para receber este tipo de investidores.

Os problemas relacionados com as infraestruturas, sobretudo eletricidade, água e saneamento, funcionam como dissuasores. Há limitações na distribuição da energia e o mais comum é o recurso a geradores. Mas Castro Henriques tem uma resposta: "É preciso identificar onde estão as infraestruturas” que já exsitem. “Hoje, há uma preocupação do lado angolano, a agência homóloga (AIPEX) tem estado diligenciar no sentido de superar esses desafios”.

As deficiências na formação e qualificações dos recursos humanos são outro fator que dificulta o desenvolvimento de projetos em Angola, apontaram ao Expresso empresários portugueses radicados no país. Mas Castro Henriques diz haver exemplos de companhias que fazem essa formação na sede. “Há empresas que estabelecem academias de treino. Recrutam angolanos que levam para Portugal uns tempos, que conhecem a operação e depois voltam para posições de chefia, para formar outros. Na construção é onde isso mais se faz.” Outro exemplo concreto, diz o responsável pela agência, foi recentemente de uma empresa na área da metalomecânica que levou quadros para formar em Portugal antes de estabelecerem em Angola uma unidade industrial.

Passos para a “confiança”, diz o ministro da economia
Entre os 35 acordos assinados entre os dois países (11 deles no âmbito desta visita de Estado) há pelo menos três instrumentos que, segundo o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, são "são um passo significativo na criação de condições de confiança para os investidores portugueses”, avançou ao Expresso.

O primeiro é a resolução da dívida às empresas portuguesas. Na passada quinta-feira, Manuel Nunes Júnior, ministro de Estado e do Desenvolvimento Económico de Angola, anunciou que já estavam pagos 176 milhões de euros às empresas portuguesas (60% das dívidas certificadas). “Não se pode dizer 'venham investir' sem se criar confiança nas empresas”, diz Siza Vieira.

Em segundo lugar, o acordo para evitar a dupla tributação - que Angola não tem com outros Estados - remove um dos fatores de dissuasão a este tipo de investimento, que era as empresas poderem ser tributadas nos dois países pelos mesmos rendimentos. Em terceiro, o Acordo para a Proteção Recíproca do Investimento (que Angola só tem com o Brasil e com a Rússia), e que espera luz verde de Bruxelas, dará mais garantias aos empresários portugueses a investir no país e "corresponde uma aspiração antiga de Portugal”, sublinha o ministro da Economia.

A alteração do perfil dos investidores é uma “inevitabilidade”, já tinha afirmado ao Expresso João Traça, presidente da Confederação do Comércio e Indústria Portugal-Angola (CCIAP). “O principal problema é o contexto da economia angolana, com falta de divisas e reduzido consumo interno. Assim que a economia voltar a crescer, grande parte destes problemas fica resolvido."

A diversificação de que falava Castro Henriques é para agarrar, acredita o presidente da CCIAP: "A economia angolana vai diversificar-se cada vez mais e a verdadeira questão para os empresários portugueses é saber se vão conseguir agarrar as oportunidades ou vão deixar que sejam empresários de outros países a fazer tais investimentos”. Daqui a ano e meio, saberemos.

FONTE: Expresso

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