Crescimento imparável: estratégia, oportunismo ou suicídio?

11 junho 2018

Noticiava há dias a Marktest que “os dados disponíveis [...] mostram que o número de lojas das insígnias da grande distribuição duplicou entre 2009 e 2017”. Assim, “em 2017, existiam no país um total de 3382 lojas de 32 insígnias da grande distribuição”, sendo que “este valor corresponde a uma duplicação dos números de 2009, quando se contavam 1678 estabelecimentos de 36 insígnias”.

O crescimento, em qualquer ramo de negócio, é um desígnio. Crescer é um objectivo permanente. Parar de crescer é, para muitos, parar no degrau da estagnação, o primeiro da escada do declínio.

Mas neste caso concreto – o das lojas da moderna distribuição – há outros dados a considerar. Desde logo estas lojas estão fisicamente instaladas junto de agregados populacionais e destinam-se a servir (e a conquistar as preferências e a carteira) os habitantes desses mesmos locais ou dos que próximo delas circulam.

Portugal tem pouco mais de 10 milhões de habitantes e nesta última década o país enfrentou, de forma ainda mais significativa, o impacto da crise demográfica com o decréscimo acentuado da natalidade e o envelhecimento sensível da população. Acresce que, em especial no pico mais profundo da crise económica, assistiu-se a uma vaga de emigração (principalmente emigração jovem) que pressionou ainda mais a demografia, mas também, obviamente, o consumo.

Assim, em boa verdade, temos – ao fim de uma década – o dobro das lojas para uma população que terá retrocedido mais de 300.000 habitantes.

Mas é também verdade que nesse mesmo período o turismo disparou e que, ano após ano, o número dos que nos visitam não cessa de aumentar, atingindo, em 2017, um pico de 22 milhões de turistas que entraram em Portugal. E se nem sempre essas visitas corresponderão a mais consumidores nas lojas, há toda uma economia de serviços (hotelaria, restauração, cafetarias, bares, …) que se abastece total ou parcialmente naqueles espaços comerciais da distribuição moderna.

Por outro lado, quando se fala em duplicação de lojas, estamos a somar maçãs com peras para atingir aquele novo número. Como sabemos, nos últimos anos têm sido essencialmente os formatos de proximidade aqueles que apresentam maior dinamismo. Basta pensar que um hipermercado de 10.000 m2, corresponde, ao nível da área de vendas, a 50 lojas de proximidade de 200 m2 para se perceber que ao crescimento do número de lojas, em número absoluto, se pode contrapor uma avaliação bem distinta se pensarmos nesse mesmo crescimento e estivermos, em alternativa, a falar em área útil de vendas.

E recorde-se, a propósito, que insígnias como a Meu Super (ligada à Sonae) ou a Amanhecer (ligada ao grupo Jerónimo Martins) não existiam em 2009 e hoje acumulam, qualquer uma delas, mais de 300 lojas. Ou que o crescimento do parque de lojas, porque desequilibrado no que diz respeito à sua distribuição pelos diversos operadores, acabou por se converter num fator adicional de reforço da já fortíssima concentração no mercado do retalho alimentar, sendo que as duas principais cadeias de distribuição possuem – consideradas as suas diferentes insígnias –mais de 60% do mercado nacional.

Um dado mais a adicionar à análise: cada consumidor português visita, em média, entre quatro e cinco lojas de diferentes insígnias repartindo por estas as suas compras. Mas, ao mesmo tempo, o número total de idas às compras vem continuamente diminuindo e o total de compras que fazemos (em volume) não tem crescido nos últimos anos. Ou seja, fazemos menos visitas às lojas, não compramos mais em cada visita e somos menos fiéis às lojas que visitamos.

É incontestável que, não obstante todos estes fatores, a febre das aberturas parece ter-se contagiado à larga maioria das insígnias a operar no mercado nacional, com novos espaços e lojas remodeladas, de diferentes formatos e para todos os gostos. E essa febre, que concentra cada vez mais o mercado nas mãos de meia dúzia de operadores e em especial dos dois maiores, faz de alguma forma lembrar o ciclo de abertura de dependências bancárias dos anos oitenta e noventa.

E levanta várias questões: são estas aberturas um movimento vencedor e correspondente à melhor interpretação das estratégias de crescimento e consolidação das diferentes insígnias no mercado português? Ou, ao invés e de certo modo em linha com o que se verificou no setor bancário, será esta uma actuação que se baseia no aproveitamento mais ou menos casuístico de oportunidades que vão surgindo ou de aberturas para evitar que concorrentes ocupem os mesmos espaços?

Os mesmos (ou até menos) consumidores, com um poder de compra que não teve nem terá evoluções demasiado significativas, serão suficientes para financiar este grande esforço de investimento? Ou os distribuidores continuarão a esperar pela ajuda não voluntária de outros operadores da cadeia?

Serão os turistas que nos visitam justificação suficiente para todas as novas lojas que vão sucessivamente abrindo ou reabrindo? Ou assistiremos mais cedo ou mais tarde a uma canibalização entre as diferentes insígnias e formatos, luta fraticida no fim da qual apenas sobreviverão os mais fortes?

Em abono da verdade, deve sempre lembrar-se que as lojas portuguesas da distribuição moderna são, quando comparadas com as de outros países europeus, espaços esteticamente muito conseguidos, com a capacidade de fornecer uma experiência de compra bastante agradável e com uma perspectiva de serviço que não desmerece, bem pelo contrário, relativamente às lojas de outros países. E fornecedores e consumidores agradecem, certamente, essa qualidade e grau de sofisticação.

Mas será a densificação quase descontrolada do tecido comercial a melhor resposta aos desafios económicos e populacionais que se colocam às insígnias do setor? Tenho as maiores dúvidas…

Pedro Pimentel Diretor-geral da Centromarca

FONTE: Vida Económica

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