2011.11.22 (00:00) Portugal
Se os grandes retalhistas reduzissem o tempo que demoram a pagar, produtores e fornecedores teriam maior liquidez para pagar salário e investir na modernização e exportação. O Presidente da Centromarca, que representa fabricantes de produtos de marca, diz que a grande distribuição se financia à custa dos fornecedores.
Na altura em que a Lei da Concorrência está em revisão, João Paulo Girbal pede ajustes na legislação que regula a relação entre as partes e os prazos de pagamento, e sugere a criação de um tribunal arbitral.
Sol: O que é que os fabricantes das marcas de grande consumo esperam para este Natal?
João Paulo Girbal (JPG): Estimo que se retraia a dois dígitos, entre 10 e 20%. Nalguma áreas, sobretudo as consideradas de luxo acessível, a retracção ainda será maior. Nos produtos tradicionais (na quadra) e da agro-industria, a queda será menor. Se Portugal tivesse uma industria forte estaríamos melhor do que estamos. O futuro tem de passar por uma industria e marcas fortes, que possam exportar.
Sol: Com o aumento do IVA e do custo das matérias-primas, os preços dos produtos de grande consumo vão ter de subir?
JPG: Aqueles que tiverem aumentos de IVA, obviamente. E, se não houver esse aumento, é porque alguém está a paga-lo, ou está a ser imposta a alguém. Cada vez temos menos oferta e, como consumidores, estamos a ser prejudicados, porque isso significa menos variedade em termos de qualidade, mas também em termos de preço, Houve uma campanha de um distribuidor que dizia ‘IVA zero’ ou ‘IVA aqui não entra’. Quem pagou o IVA? Foram os fornecedores. Mas agora os fornecedores não têm margem para acomodar esses aumentos. Contudo, as tentativas vão existir. O aumento do IVA é necessário para o plano de autoridade, mas temos de ter cuidado para ver para onde vai ser empurrado. É muito importante que a distribuição não tente passar esse aumento.
Sol: Como é que grandes fabricantes, como a Nestlé ou a Coca-Cola, vêem Portugal agora?
JPG: Temos duas missões prioritárias para Portugal: produzir e exportar mais, porque é aí que vamos equilibrar a nossa balança comercial, a trair investimento directo estrangeiro produtivo. Estamos a falar de multinacionais que decidem que é bom aumentar a produção das unidades que têm, em Portugal ou ter novas unidades . Se não houver um cuidado de reequilibrara a relação entre produção e distribuição, algumas multinacionais poderão dizer que não têm vantagens em estar em Portugal.
Sol: Há multinacionais a olhar para Portugal ou a querer sair?
JPG: Haverá ambos os casos. Há casos de multinacionais a funcionar há muitos anos e que investiram seriamente na produção, mas que se vêem confrontadas com certas situações e se questionam se vale a pema continuar neste pequeno mercado.
Sol: Que situações?
JPG: Por exemplo, o custo do acesso à prateleira. Porquê fabricar em Portugal se têm muita dificuldade ou se sai caríssimo chegar à prateleira? Às vezes até é mais caro do que fabricar os produtos. Ao contrario, pode haver empresas que tenham vontade de investir cá. Os nossos custos de produção podem tornar-se interessantes agora com a questão do controlo do custo da mão-de-obra. Em Portugal temos empresas com marcas fortes, mas poucas. Apostar numa industria de marca faz todo o sentido, até do ponto de vista de sustentabilidade, porque não basta vender capacidade produtiva. Se fabricamos chávenas mas são outros que lhes põem a marca, quem tira o maior valor do produto é quem as rotulou. Isso aconteceu durante anos. Vendemos capacidade produtiva e hoje há o risco de sermos substituídos por geografias baratas.
Sol: E os prazos de pagamento da distribuição aos fornecedores?
JPG: O distribuidor encomenda num dia e paga, segundo o Banco de Portugal, em média mais de 70 dias depois. O consumidor compra e paga logo, pelo que, entretanto, o distribuidor fica com esse dinheiro. Na Jerónimo Martins este período é capaz de representar 700 milhões de euros a custo zero. E na Sonae são mil milhões. Sá que um fornecedor, para poder entregar sem receber durante esse tempo, tem de financiar-se para pagar salários e matérias-primas todos os meses. Se os fornecedores recebessem mais cedo, passavam a ter mais disponibilidade líquida para investir e modernizar-se. Já a distribuição, fica com mais dinheiro disponível. Os distribuidores têm capacidade de decidir o quê e a que preço o cliente compra. Será que ganham o seu dinheiro na margem que retiram dos produtos de marcas de distribuição ou no facto de terem aquele dinheiro durante tanto tempo? Se se antecipasse o prazo para 30 dias, libertava-se para a economia quase dois mil milhões de euros. A distribuição também faz subsidiação cruzada.
Sol: Como assim?
JPG: Utiliza a margem que liberta dos produtos de fabricantes para poder baixar os preços dos seus produtos e fazer mais publicidade. Hoje, o que interessa é meter os clientes nos supermercados.
Sol: O que espera da futura Lei da Concorrência, em revisão?
JPG: A legislação que regula as relações entre as partes e os prazos de pagamento está desadequada é ineficaz. E a questão da dependência económica é muito importante, para os dois players (Sonae e Jerónimo Martins) com mais de 50% do mercado. Mesmo que a lei exista, é preciso que alguém se queixe ou actue preventivamente... mas, se há dependência económica, não vamos queixar-nos. Se uma empresa tem um cliente que vale 30% das vendas, mas não aceita as condições que coloca, perde-o e perde 30% das vendas que não tem como substituir, porque o mercado não é elástico.
Sol: Deve ser criado um Tribunal Arbitral...
JPG: Sim, como em Inglaterra, que é um bom caminho a seguir. Têm uma entidade que depende do Parlamento, ou seja que não está ao sabor do governo A ou B, e que regula tudo isto, com capacidade para impor coimas violentas e com um provedor independente, o adjudicador.
FONTE: Sol
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